11 de abril de 2021

Jundiaí /SP

Quem é o meu próximo?

“Atendeste, Senhor, o desejo dos pobres” (Sl 10[9],17)

 

Caros leitores e leitoras: falar da pobreza é algo que nos constrange, sobretudo quando consideramos que, na sociedade em que vivemos, há um sem número de pessoas que vivem em condições de miséria, muitos dos quais em situação de rua.

É verdade que Jesus chegou a dizer que “os pobres sempre tendes convosco” (Mt 26,11; cf. Mc 14,7; Jo 12,8), mas é necessário saber interpretar bem estas palavras do Mestre em seu contexto: Jesus elogia o gesto carinhoso de Maria de ungir os pés do Mestre antes de sua morte, em contradição com a atitude hipócrita de Judas que cuidava da bolsa de Jesus e era ladrão, furtando o que nela se depositava (cf. Jo 12,6). Mas, doutro lado, já no Antigo Testamento, se podia ler: “visto que nunca faltarão pobres na terra em que moras, eu te ordeno: abre tua mão para teu irmão, teu necessitado, teu pobre, em tua terra” (Dt 15,11).

Com este espírito de solidariedade aos pobres, os Bispos do Brasil lançaram, a partir de Quarta-feira das Cinzas, início da Quaresma, que é tempo de conversão para a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus, a 58ª edição da Campanha da Fraternidade, com o tema: “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso”, e o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).

Por que somos tão indiferentes para com o sofrimento alheio? Por que estamos perdendo, cada vez mais, o sentido mais profundo da vida, buscando a felicidade de forma individualista e consumista? Eis o apelo da Quaresma dentro da Campanha da Fraternidade: converter-se a Deus, a partir da conversão ao irmão! A exemplo de Jesus, o Bom Samaritano, o próximo, na verdade, torna-se todo aquele de quem nos aproximamos, todo aquele que sofre diante de nós. Deste modo a nossa vida torna-se essencialmente samaritana: não se pode viver a vida, passando ao largo das dores dos nossos irmãos e irmãs.

Por fim, é importante observar a provação feita por Jesus na sua história: quem socorre o homem, vítima de assaltantes, deixado quase morto à beira da estrada não é nenhum dos dois viajantes que chegam por primeiro, vindos do culto religioso realizado no Tempo de Jerusalém: o sacerdote e o levita, os homens do culto sagrado, pois os dois seguiram sua viagem passando “adiante pelo outro lado” (Lc 10,32). É justamente um samaritano, pertencente a um povo discriminado e odiado pelos judeus, considerado por eles como homem cismático e até pagão, que olha, vê o homem moribundo, sente compaixão, dele se aproxima, faz os cuidados práticos emergenciais e garante que o assaltado seja levado a uma hospedaria até a sua plena recuperação, comprometendo-se por todas as despesas. É um grave alerta contra o nosso farisaísmo e a nossa mania de querer lavar as mãos diante da dor alheia.

Procuremos mudar a nossa atitude! Procuremos manifestar, concretamente, que amamos a Deus na pessoa do nosso próximo, como Cristo nos amou (cf. Mt 22,37-39; Jo 15,12).

Publicado no Jornal de Jundiaí em 01.03.2020.

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