27 de setembro de 2021

Jundiaí /SP

Pandemia, Esperança e Páscoa

“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20)

 

Caros leitores e leitoras: a pandemia da Covid-19 é um assunto muito sério e, por isso, tem atraído todas as nossas atenções, pois desafia as nossas vidas. Porém, mesmo com esse clima de insegurança que paira no ar, a Solenidade da Páscoa não pode passar despercebida. A data – a mais importante do calendário cristão – marca a ressurreição de Jesus Cristo e costuma ser bastante festejada, tanto em celebrações religiosas nas igrejas, quanto em reuniões familiares em casa. Este ano, infelizmente e mais uma vez, justamente por causa da pandemia que se tornou mais fatal e agressiva, continuaremos seguindo integralmente as orientações do governo estadual e das entidades de saúde, mantendo o isolamento social para evitar a disseminação desta doença terrível e tão insidiosa.

Como sabemos, o Ressuscitado é o Crucificado. No seu corpo glorioso, estão indeléveis as feridas que se tornaram frestas de esperança. As feridas abertas hoje na humanidade pela pandemia são tantas: começando pelos contagiados com o coronavírus, de modo especial, os doentes, os que perderam suas vidas e os seus familiares; a solidão; o cansaço dos agentes de saúde; a politicagem e a corrupção; as fake news; problemas econômicos; desemprego; fome; suicídios; enfim, são tantas mazelas. Contudo, a Páscoa, a ressureição de Jesus Cristo, é o ápice daquilo que cremos: o amor venceu a morte.

A preocupação com a saúde e com a economia diante do novo coronavírus é, sem dúvida, legítima e preocupante. Mas não podemos nos perder nesse caos e esquecer da Páscoa em sua essência. Jesus pagou nossas dívidas, livrou-nos do peso da condenação pelos nossos pecados e venceu a morte. Por meio de seus ensinamentos, Ele nos transforma, nos fortalece e nos dá ânimo e coragem para enfrentarmos situações difíceis como esta. Só assim, apoiados pela fé, conseguimos sentir a verdadeira paz e a esperança que não nos engana.

Esta pandemia não nos privou apenas dos afetos, mas também da possibilidade de nos alimentar da graça divina e da consolação que brotam dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia e da Reconciliação. Mas o Senhor não nos deixa sós! Ele nos assegura: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). É isso que deve mover as nossas vidas e inspirar o nosso caminho. Como São Paulo, que na sua conversão encontrou-se com Jesus ressuscitado, e daí para a frente não faz outra coisa a não ser testemunha do Senhor Vivo, exclamando: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã nossa fé” (1Cor 15,14).

O Ressuscitado é, em pessoa, a esperança para todas as pessoas que aguardam dias melhores. No raiar do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria vão ao túmulo do Senhor e, ao chegarem, lá se deparam com um anjo que lhes anuncia que Jesus ressuscitou. Imbuídas pelo medo, mas esperançosas pelo anúncio, as testemunhas da ressurreição saem depressa para anunciar o Cristo que venceu a morte. No caminho, elas encontram o próprio Cristo, que lhes reafirma o pedido do anúncio (cf. Mt 28,1-10).

Enquanto vivia no meio dos discípulos, Jesus comunicou várias vezes a respeito de sua condenação, morte e ressurreição, mas ainda assim pairava sobre eles o medo em meio às incertezas. Em nossa vida vemos surgir estes mesmos sentimentos, de um não saber como será o dia de amanhã ou quando todo o tormento irá passar. Somos, então, chamados a vivermos esse tempo de forma autêntica, sem perder de vista a esperança, mesmo em meio às dúvidas e aos desafios. Os discípulos tinham medo, mas carregavam em si a confiança em tudo aquilo que Jesus lhes tinha dito e feito. Também em nosso coração deve reinar um espírito de confiança, na certeza de que “a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

Essa pandemia mexeu com nosso cotidiano, nosso trabalho e nossas relações humanas. Em meio a tanto sofrimento, chega agora a Páscoa. Não será possível nos reunirmos nas igrejas para celebrar o grande mistério da nossa fé. Muitos não poderão sair de suas casas para visitar familiares e amigos. Contudo, como discípulos missionários do Cristo Ressuscitado, devemos crer que a Páscoa deve acontecer, primeiramente, dentro de cada um e cada uma de nós. Na fé cristã, a Páscoa significa a passagem da morte para a vida, da dor para o alívio, da tristeza para a alegria. Jesus, antes de ressuscitar, ficou por três dias guardado em um túmulo com uma pedra grande que fechava a entrada. Hoje, encontramo-nos fechados pela Covid-19, mas não há espaço para o desespero. É tempo de olharmos para o nosso coração, valorizarmos o que temos de bom e nos fortalecermos na fé e na esperança, na plena certeza de que dias melhores estão por vir.

Que nesta Páscoa possamos renovar a esperança em uma vida nova, em um mundo novo, e em uma humanidade mais fraterna e solidária. Que a luz da ressureição de Jesus Cristo reacenda em nossos corações a fé e a esperança em dias melhores.

Meus irmãos, em tudo isso haverá ressurreição!

Feliz Páscoa! E a todos abençoo.

 

Publicado no jornal A Federação em 01.04.2021.

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