“O sacerdócio é o amor do coração de Jesus”

“Deus vos perdoou em Cristo” (Ef 4,32).

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Faz pouco tempo que a Igreja celebrou a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (28 de junho). Se Jesus Cristo ama a todos com amor infinito, ama com amor especial e privilegiado aqueles que Ele escolheu e amou para agirem em seu nome como sacerdotes da Nova e Eterna Aliança. Por isso, a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus muito nos faz lembrar o dom amoroso e gratuito da vida e a missão do sacerdote. Como dizia São João Maria Vianney (1786-1859), Padroeiro dos Padres e dos Párocos: “O sacerdócio é o amor do coração de Jesus”. É do Sagrado Coração de Jesus que nasce e floresce o dom do sacerdócio para a Igreja e para o mundo.

São João Paulo II, a 25 de março de 1995, acolheu a sugestão da Congregação para o Clero e propôs para toda a Igreja celebrar, em cada diocese, o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, por ocasião da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, “almejando que tal iniciativa ajude os sacerdotes a conformarem-se cada vez mais plenamente com o coração do Bom Pastor” (Carta do Papa João Paulo II aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa de 1995, n. 8b).

Infelizmente nem sempre nós, ministros ordenados, fomos ou somos capazes de corresponder ao amor infinito do Sagrado Coração de Jesus. O próprio Jesus comparou a Igreja a um campo no qual o bom grão que o próprio Deus semeou cresce junto com a erva daninha que “um inimigo” secretamente lançou nele (cf. Mt 13,24-30) ou a uma rede de pesca na qual o próprio Deus separa os bons peixes dos maus (cf. Mt 13,47-50). “De fato, as ervas daninhas no campo de Deus, a Igreja, são agora visíveis demais e os peixes que não prestam na rede também mostram sua força. No entanto, o campo ainda é o campo de Deus e a rede é a rede de Deus. E em todos os tempos, houve não apenas ervas daninhas ou peixes ruins, mas também as colheitas de Deus e os peixes bons” (Artigo do Papa Emérito Bento XVI publicado por ACI Prensa, 10/04/2019).

Aqui, não se pode querer “tapar o sol com a peneira”, dissimulando ou subestimando determinados fatos envolvendo o clero, nem generalizar demasiadamente esta situação triste, com o objetivo de denegrir a imagem da Igreja e dos ministros ordenados, como se todos nós fôssemos culpados e, consequentemente, julgados de forma injusta e cruel. No entanto, devemos admitir que, principalmente nos últimos anos, foram descobertos casos de homens de Igreja que não foram fiéis à sua missão de serem sinais autênticos de Jesus, o Bom Pastor. Por inúmeras vezes, o Papa Francisco tem falado, com profunda tristeza e consternação a respeito da crise da fé que a Igreja atualmente enfrenta, devido, em grande parte, às faltas graves cometidas por alguns de seus clérigos e pessoas consagradas. Quem não tem ficado chocado com as notícias veiculadas quase todos os dias pelos meios de comunicação social a respeito de crimes cometidos por aqueles que deveriam dar testemunho de sua fidelidade ao Mestre e à Igreja, como, por exemplo: mau uso do dinheiro da Igreja arrecadado pela causa da evangelização; desprezo pelos princípios éticos; desrespeito aos vários carismas da Igreja; autoritarismo que chega a abafar os dons dos outros membros da Igreja, principalmente, dos cristãos leigos e leigas; infidelidade na vivência do celibato sacerdotal assumido por causa do Reino; e, principalmente, os abusos sexuais aos menores? Na Carta ao Povo de Deus do Papa Francisco (20/08/2018), as seguintes palavras de São Paulo ressoam profundamente no seu coração, como, certamente, no nosso: “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Cor 12,26).

Diante desta situação nefasta que foi criada, particularmente em relação aos crimes sexuais com menores, a Igreja tomou uma postura firme, corajosa e intransigente. Vários documentos foram publicados pela Santa Sé, como a recente Carta Apostólica em forma de Motu Proprio (isto é: uma normativa da Igreja Católica, expedida diretamente pelo próprio Papa) do Papa Francisco: Vos estis lux mundi (“Vós sois a luz do mundo”) que determina que cada Diocese deva ter “um sistema estável e facilmente acessível ao público para apresentar as denúncias” contra o mau comportamento de um clérigo (Artigo 2, § 1). Outras reuniões importantes foram realizadas em Roma, como a convocação dos Presidentes das Conferências Episcopais do mundo inteiro para o “Encontro sobre a proteção na Igreja dos menores e adultos vulneráveis” (Vaticano, 21-24/02/2019).

Outra medida importante a ser tomada é a formação permanente e integral dos nossos padres, como na escolha diligente e na formação mais comprometedora dos nossos seminaristas, nossos futuros padres.

E, por fim, nunca vamos menosprezar a misericórdia infinita do Sagrado Coração de Jesus. Na realidade, na Igreja, a grande maioria dos seus ministros ordenados trabalha incansavelmente pelo Reino, oferecendo generosamente a própria vida, empregando as melhores energias para o anúncio do Evangelho e para o cuidado do povo de Deus.

Uma das Orações do Dia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus suplica a Deus que “lhe ofereçamos uma justa reparação consagrando-lhe toda a nossa vida”. Devemos crer na força da oração e do jejum e na prática das obras da misericórdia, vivendo mais as atitudes provindas das seguintes palavras: “reparação”, “satisfação” e “desagravo”.

“Jesus, manso e humilde de coração (cf. Mt 11,29), fazei o nosso coração, particularmente o dos nossos sacerdotes e seminaristas, semelhante ao Vosso”. Assim seja!

E a todos abençoo.

Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

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