8 de dezembro de 2021

Jundiaí /SP

Ministério e Liturgia

Recolhemos a visão do Padre Massimiliano Cenzato, diretor do ofício litúrgico e do arquivo da Diocese de Mântua.

A entrevista é editada por Andrea Cappelletti, publicada por Settimana News, 06-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Que avaliação podemos fazer depois de mais de cinquenta anos da Sacrosantum Concilium?

SC é a primeira Constituição e, talvez, no plano teológico, a menos madura entre aquelas conciliares, mas é também aquela que lançou as bases de toda a estrutura eclesiológica subsequente, que chegou ao topo com a Lumen Gentium e Gaudium et Spes. Creio que nestes cinquenta anos a Igreja universal tenha tentado adaptar os seus ritos ao espírito da Sacrosantum Concilium e isso é imediatamente evidente quando se abrem os textos litúrgicos.

O momento em que começa a liturgia eucarística é emblemático: antes era marcado pelo sacerdote paramentado, “paratus“, agora, pelo contrário, pelo momento em que o povo é chamado e se reúne. Isso já denota uma mudança de mentalidade que reverbera no que foi colocado em nível oficial.

Nessas décadas assistimos à sucessão de várias fases: uma primeira, caracterizada por uma tentativa de eliminação de tudo o que parecia velho e rançoso, depois uma recuperação, depois, outra ainda nos anos 1980, vivida com uma certa liberdade, eventualmente um pouco anárquica. Finalmente, aos poucos, voltou-se a buscar o gosto pela celebração em formas mais ordenadas e dignas.

Como jovem sacerdote no início do terceiro milênio, percebo que hoje, a partir dos vértices da Igreja até os sacerdotes e as comunidades locais, esteja presente uma forte atenção para que a celebração dos sacramentos e dos ritos aconteça nas formas apropriadas.

Nestes tempos, infelizmente, a maioria dos fiéis nem sempre pode se engajar na caridade e no testemunho, mas sempre se encontra na liturgia. É aqui – no encontro da Igreja “real” – que hoje, talvez, valha a pena despender um pouco mais de energia de recursos.

Como mudou o papel do ministério sacerdotal e, portanto, dos leigos na liturgia?

Penso que os atrasos na implementação das indicações magisteriais não devam ser rastreadas tanto ao nível da cúpula, mas sim ao nível das comunidades locais. O verdadeiro atraso provavelmente se encontra na compreensão e implementação apenas parciais da eclesiologia: a visão da Igreja do Vaticano II é, de fato, muito mais aberta e livre do que a visão monolítica na qual o padre ocupava normalmente o centro.

Também aqui notamos um amplo espectro de posições: lembramos que, sobretudo antes do Concílio, o sacerdote, no rito, fazia de tudo um pouco: era leitor, cantor, presidente. Consequentemente, a ministerialidade era grandemente reduzida; a participação dos fiéis era pela proximidade de sentimentos, não porque eles participavam da própria ação.

Com os novos ritos e os novos livros litúrgicos, recuperou-se a vitalidade da Igreja medieval ou antiga, ao passo que, deste ponto de vista, às vezes o sacerdote continua a assumir muitas tarefas.

A atual liturgia prevê a presença do sacerdote, mas também de ministerialidades presentes em várias formas. Vamos pensar, por exemplo, na liturgia da Palavra: estão previstos os leitores, o salmista, o diácono, o coro, os coroinhas com velas, eventualmente o comentarista. Aqui o desafio não é tanto do sacerdote que deve ceder espaço, mas dos leigos chamados a ocupar esses espaços a eles dedicados.

Num dos números do ordenamento geral do novo Missal – que, aliás, já tem quase vinte anos – está previsto que o sacerdote seja auxiliado por leigos até na escolha das orações. A disponibilidade, portanto, existe, agora é preciso coragem para nos prestarmos a tais tarefas. É lindo e encorajador que na maioria das comunidades posso observar que, tanto leigos como sacerdotes, estão se empenhando em trilhar esse caminho.

O que podemos dizer sobre a reforma do Missal Romano?

Esta é a terceira edição e, substancialmente, não difere muito das anteriores em termos de estrutura e programa ritual. Por outro lado, foi feito um grande trabalho de tradução que os leigos não puderam apreciar plenamente, pois na liturgia eucarística o Missal é usado, essencialmente, apenas pelo ministrante.

Não se trata, portanto, de ter um novo rito. Já nas premissas da Conferência episcopal italiana está declarada a finalidade primordial do novo missal, que é redescobrir a forma de celebrar, o sabor dessa ação. No entanto, seria interessante que os leigos também pudessem ler o novo Missal, já que o que se discute é a chamada “ars celebrandi“, que é uma arte de celebrar a liturgia usando as linguagens mais adequadas em uma sinestesia capaz de potencializar o nível emocional da celebração para que possa fazer vibrar o coração dos fiéis.

Através disso, são incluídos critérios como a “nobre simplicidade” que pareceria um oxímoro, mas que de fato nos ajuda a entender como uma liturgia deve ter sua própria solenidade e dignidade e, por outro lado, sua simplicidade, isto é, não ser pomposa, mas leve a ter uma experiência imediata do sentido das ações litúrgicas realizadas naquele momento. Um exemplo: é necessário evitar o excesso de verbosidade.

O velho ditado “a liturgia faz o que diz e não diz o que faz” indica que os sinais e os símbolos não são explicados, mas vividos e, portanto, deve ser preservada a verdade do que está sendo realizado. Todos na assembleia estão dentro daquela ação e a ação litúrgica mantém a assembleia celebrante unida.

Qual é o lugar do canto na liturgia?

A linguagem sonora não verbal é certamente uma das mais importantes. Todos os ritos, de todas as religiões, não podem prescindir dela: a linguagem da música é uma das mais poderosas porque preenche o espaço litúrgico, envolve e inclui todos os presentes. Outras linguagens às vezes se perdem: podemos citar, por exemplo, aquela da luz, dos gestos, da proxêmica; eles estão mais sujeitos a serem desconsiderados pela atenção dos fiéis, mas o canto é imediato e envolvente, portanto, muito mais eficaz.

Quando Santo Agostinho dizia “qui canit bis orat“, afirmava algo real: enquanto você canta, você não está apenas dizendo algo sobre sua fé, mas está se associando à ação que está ocorrendo. E não é só uma parte cerebral, racional, mas emocional porque lhe faz vibrar por dentro, tudo está envolvido: a respiração, o coração, a mente, os olhos e o estar perto dos outros que cantam.

Daí a necessidade de um cuidado particular com a parte musical e com os textos: não foi à toa que Lutero alcançou grandes resultados no plano catequético-popularização com a composição de cantos cujos textos transmitiam sua dogmática. O risco para nós é o oposto: ou seja, o uso de palavras que têm pouco significado ou mesmo nada de cristão. Os diretores dos corais deveriam escolher as canções não só com base na harmonia, mas também com base nos textos e na coerência com o ato litúrgico que está ocorrendo, porque a linguagem deve expressar o que está sendo visto. Não se canta “na” Missa, mas se canta “a” Missa.

Como estão funcionando os grupos litúrgicos?

A história desses grupos é um claro-escuro: em nível teórico, o grupo litúrgico deveria estar presente em cada comunidade. A nossa igreja local, em 2008, dedicou toda a semana pastoral ao tema com o título “A obra bela”, dando frutos duradouros, até mesmo como ministerialidade, que, a partir daquele momento, se desenvolveram.

grupo litúrgico deveria ser o lugar onde nos preparamos, estudamos, nos tornamos cada vez mais competentes em nível litúrgico, mas também um lugar onde se vive a comunhão, porque mantém unidas as várias ministeriaidades litúrgicas: os ministros extraordinários da Comunhão Eucarística, o coro, os leitores, sem esquecer aqueles que têm criatividade para os arranjos de flores de igreja, por exemplo. Cada um deles desempenha um papel importante na concertação da liturgia como um todo.

Compete ao grupo litúrgico, portanto, cuidar da direção da ação litúrgica celebratória: direção remota com a formação e com a memória histórica; direção imediata no deslocamento de pessoas, lugares e objetos para as várias celebrações e na criação das condições da relação com outros os grupos da comunidade; enfim, uma direção pontual, cuidadosa e efetiva no próprio momento da celebração, livrando o ministrante das preocupações contingentes. No fundo, deveria haver uma ação litúrgica que se desenvolva de forma concertada, com ordem, de acordo com os cânones da “nobre simplicidade” a que me referi.

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