27 de setembro de 2021

Jundiaí /SP

Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso

“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33).

 

Caríssimos irmãos e irmãs: a Igreja ajuda seus filhos a se santificarem dentro do tempo. Os tempos litúrgicos, por exemplo, acompanham o ritmo da vida que se identifica com o mistério de Cristo. E é por isso que estamos iniciando o Tempo da Quaresma.

Na Quarta-feira de Cinzas, a Igreja abre esse tempo especial chamado Quaresma. São quarenta dias de reflexão, interiorização e conversão para tornar mais profunda a consciência do que é ser cristão. É um tempo para intensificarmos a vida de oração, a penitência, o jejum e a caridade com os menos favorecidos, sempre tendo como meta não práticas exteriores vazias de sentido, mas uma real conversão para uma melhor participação no mistério pascal de Cristo.

Sabemos que a Quaresma é um tempo de quarenta dias em preparação ao evento central de nossa fé: a Páscoa do Senhor. Mas, por que quarenta dias? O número 40 é muito significativo biblicamente. Afinal, foram 40 dias do dilúvio (cf. Gn 7,4), os judeus caminharam 40 anos no deserto rumo à Terra Prometida (cf. Ex 16,35), Moisés ficou 40 dias no Monte Sinai (cf. Ex 34,28), e o profeta Elias demorou 40 dias para percorrer o caminho até o monte Horeb (cf. 1Rs 19,8). Por fim, e o fator mais importante: foram 40 dias que Jesus passou no deserto preparando-se para a vida pública e enfrentando as tentações (cf. Mc 1,13).

A Igreja nos convida a viver a Quaresma como um caminho a Jesus Cristo, escutando a Palavra de Deus, orando, sendo solidários com o próximo e praticando boas obras. Convida-nos a viver uma série de atitudes cristãs que nos ajudam a parecer mais com Jesus Cristo, já que por ação do pecado nos afastamos mais de Deus. A Quaresma, vivida num processo de profunda e verdadeira conversão, leva-nos à celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, possibilitando-nos a experiência profunda de nossa inserção no Mistério Pascal de Cristo, Mistério que atua no presente da vida humana até completar-se na eternidade.

Quaresma é tempo de mudança de vida. Por isso, é momento privilegiado de participar do Sacramento da Reconciliação. Como estamos celebrando o Sacramento da Reconciliação? Temos sentido necessidade da misericórdia de Deus, do seu perdão? Sabemos que a conversão é obra gratuita da graça, pois Deus chega antes em nosso coração, dando-nos a força para começar de novo. Pela reconciliação, o cristão é convidado a reorientar-se para Deus, de todo coração, rompendo com o pecado. É o Espírito Santo quem nos dá a graça do arrependimento e da conversão, para sermos melhores e mais coerentes com nossa fé.

No Brasil a Igreja tem o costume de realizar a Campanha da Fraternidade (CF), apresentando um tema para a reflexão e conversão nesse período. No decorrer de todo este ano − pois a CF não se limita apenas ao tempo quaresmal −, o tema é “Fraternidade e vida: dom e compromisso” e o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34), extraído da parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 29-37). O Objetivo Geral da CF é “conscientizar, à luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como dom e compromisso, que se traduz em relação de mútuo cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e no planeta, nossa Casa Comum”.

Como sabemos, na parábola do Bom Samaritano, o sacerdote e o levita desviam-se do homem ferido, pois não tinham tempo para ele. Mas o Samaritano aproxima-se da vítima dos salteadores e, movido pela compaixão, gasta seu tempo e dinheiro, levando-o para a hospedaria. Paga todas as despesas e promete retribuir ao dono da hospedaria tudo o que gastasse para cuidar do homem ferido.

A postura do samaritano contém o centro do ensinamento de Jesus: o próximo não é apenas alguém com quem possuímos vínculos, mas todo aquele de quem nos aproximamos. Sentir compaixão é a chave para fazer a vontade de Deus, que ama toda a criação. A vida nos traz oportunidades de concretizar a fé em atitudes bem específicas. Para perceber as necessidades dos outros, não bastam os conceitos e a doutrina, mas, sim, a compaixão e a proximidade. Não se deve questionar quem é o destinatário de nosso amor. Importa decidir que se deve amar e não tanto quem deve ser amado, pois todos devem ser amados, sem distinção. Não importa quem é o próximo. Importa quem, por compaixão, se torna próximo do outro (cf. Lc 10,36-37).

A todos abençoo e uma Santa Quaresma e uma fecunda Campanha da Fraternidade 2020.

Publicado no Jornal A Federação em 05.03.2020.

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