Espiritualidade e Literatura (6): Os Irmãos Karamázov, a liberdade e Santo Agostinho

“Os Irmãos Karamázov” é o último romance publicado de Dostoiévski (1879) e é um livro ao mesmo tempo filosófico e policial, que trata da conturbada relação entre o devasso Fiódor Karamázov e seus três filhos: Aliócha, “puro” e místico; Ivan, intelectual e atormentado; e Dmitri, orgulhoso e apaixonado.

Dentro da obra há o capítulo universalmente conhecido como “O Grande Inquisidor”. Nesse conto, narrado pelo personagem Ivan, ateu e liberal, a seu irmão Aliócha, monge e muito religioso, a história se passa na época da Inquisição, na cidade de Sevilha, Espanha, local onde Jesus retorna e opera curas e milagres. Ao perceber o tumulto causado por Cristo, um velho cardeal de noventa anos, o Grande Inquisidor, manda prendê-lo por heresia. Segundo o Grande Inquisidor, Jesus é acusado por ter proporcionado liberdade aos seres humanos que são vistos como miseráveis e incapazes de lidar com esta responsabilidade. Além de ser uma crítica ao clericalismo, acredito que a questão primacial do conto parece ser esta: para quê ser livre num mundo destituído de sentido, cruel e palco de um perpétuo e absurdo sofrimento? Para que escolher se qualquer escolha se dilui num vórtice de desespero? A liberdade não seria um dom, mas um fardo doloroso (essa é a mesma ideia dos filósofos existencialistas, de modo especial Sartre: “estou condenado a ser livre”. O Ser e o Nada, p.543). A liberdade seria, portanto, a causa de toda desordem.

O grande inquisidor parece esquecer do que escreveu São Paulo: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). Mas, de que liberdade Paulo estaria falando? A liberdade no cristianismo significa que não existe princípios morais a serem observados? Ou, pelo contrário, aonde exista uma moralidade cristã, não há espaço para a liberdade? Claro que não é isso, e Paulo bem o sabia. Ele percebia que no interior do coração humano havia uma tensão, uma dualidade, uma oposição entre carne e espírito (cf. Rm 7,19) que a somente observância da lei não era capaz de libertar. Mais ainda: que a liberdade diante da lei não deveria ser pretexto para uma vida cristã amoral, onde tudo passa a ser permitido. Pensar assim seria estar “amarrado” a uma lei interior da carne e não da graça. Portanto, ser livre não é “fazer tudo o que eu quero”. Muitas vezes isto é loucura. A verdadeira liberdade é escolher o Bem; é escolher Deus.

Santo Agostinho, de modoespecial em sua obra “O livre-arbítrio”, ensina que a liberdade é a capacidadede fazer o que é certo e justo, porque o liberto é obediente a Deus, e temprazer nisso, ou seja, é feliz. Em contrapartida, o “livre arbítrio” é apossibilidade de escolher o bem ou o mal. Por isso, o pecador não é livre defato, embora goze do livre-arbítrio. Nessa mesma toada o Catecismo da IgrejaCatólica define que “a liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, deagir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto, de praticar atosdeliberados. Pelo livre-arbítrio, cada qual dispõe sobre si mesmo. A liberdadeé, no homem, uma força de crescimento e amadurecimento na verdade e na bondade.A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada para Deus, nossabem-aventurança” (n. 1731). O grande inquisidor imputou os males do mundo naliberdade dada ao homem por Cristo, e, por isso, o condenou. No entanto, não éa liberdade a causa do mal, pelo contrário, a verdadeira liberdade nos aproximade Deus. É a liberdade do amor, liberdade de filhos de Deus (cf. Rm6,20-23). O “uso” inapropriado da liberdade é que causa o mal: “Deus me crioulivre: se tenho pecado, fui eu que pequei” (Santo Agostinho. Comentários aosSalmos, 31, 2, 16).

Pe. Enéas de Camargo Bête

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