Espiritualidade e Literatura (5): Dom Casmurro, o ciúme e o zelo na Teologia do Corpo

Publicado em 1899 pelo maior escritor brasileiro, Machado de Assis, Dom Casmurro é um dos maiores clássicos da nossa literatura. Narrado em primeira pessoa, faz paralelo com grandes obras da literatura universal.

Bentinho (Bento Santiago) e Capitu (Maria Capitolina) são vizinhos desde crianças. Na adolescência, percebem que há entre os dois um sentimento diferente da simples amizade. Capitu tem personalidade forte, além de ser muito inteligente, enquanto Bentinho, mais frágil, muitas vezes mostra-se indeciso e dependente da vontade materna, tanto que, destinado a ser interno em um seminário, para posteriormente seguir a carreira de padre, por força de uma promessa de sua mãe (Dona Glória), é Capitu quem, sutilmente, age no sentido de anular essa obrigação. Adultos, casam-se. Escobar, casado com Sancha, é personagem também importante na história. Maior amigo de Bento, amizade que vem da época adolescente dos dois, frequenta cotidianamente a casa de Bentinho e Capitu. Escobar morre no mar, nadando, e, pela reação de dor manifestada por Capitu, durante o velório, considerada exagerada por Bento, este passa a desconfiar de que Capitu e Escobar poderiam ter tido um “caso”. Bentinho começa, inclusive, a achar que Ezequiel, seu filho, é parecido com Escobar.

Claro que não entrarei aqui, caro leitor, na interminável discussão se Capitu traiu de fato Bentinho ou não. A genealidade da obra está justamente nisso. Contudo, não há que se negar que o ciúmes de Bentinho era corrosivo a si e a sua relação com a esposa, o filho e o amigo. Como já foi dito, o ápice da suspeita do marido enciumado foi na ocasião do enterro do amigo. Bentinho teve quase certeza do adultério, baseado em “provas” nada concretas: “No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver, tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não lhe admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas. (…) Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã ” (Machado de Assis, 2008, p.157).

São João Paulo II em várias de suas catequeses sobre a Teologia do Corpo, estabelece que há sim um ciúme sadio, que protege e educa os relacionamentos amorosos, tanto que, para o pontífice, quando se tem um relacionamento amoroso com alguém, é natural sentir ciúme. Afinal, estabelece-se um compromisso com a outra pessoa, à qual é entregue algo do ser existencial do outro e disso deve proceder um tipo de ciúme zeloso. Pense numa mãe que zelosamente questiona seu filho: “onde você estava?”; “quem são esses amigos?”. Isso explicaria também o ciumes de Deus por nós (Ex 20,5, 34,14; Dt 4,24, 5,9, entre tantas outras).

Contudo, há um ciúmes que é sim pecado e que é capaz de matar: pessoas ou relacionamentos. Ora, como distinguir, então, entre o ciúme zeloso e o ciúme pecador? A resposta é sempre perceber que o ciúme pecador “coisifica” o outro; animaliza o outro como se estivesse numa coleira: “Um verme asqueroso e feio / gerado em lodo mortal. / Morde, sangra, rasga e mina. / Aquele verme é o ciúme” (Machado de Assis. Poema: O verme).

Somos chamados, pois, a viver não uns sem os outros, sobre ou contra os outros, mas uns com os outros, para os outros e nos outros. Essa relação de amor, em vista da vivência da comunhão, revela-se para nós como fundamento e estímulo da prática da caridade fraterna, do apostolado e do amor entre as pessoas. O amor ratifica e expande a pessoa como imagem e semelhança de Deus, e se entende assim, porque o amor deve ser um dom, no sentido de gratuidade e não um fardo que aprisiona como o pecado do ciúme: “o dom feito ao homem por parte de Deus em Cristo é um dom total, ou seja, radical, como indica precisamente a analogia do amor esponsal: é, em certo sentido, tudo o que Deus pôde dar de si mesmo ao homem, consideradas as faculdades limitadas do amor-criatura” (Teologia do Corpo, 29/09/1982).

Pe. Enéas de Camargo Bête

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