Espiritualidade e Literatura (4): Moby Dick e o veneno da alma

“Chamem-me simplesmente Ishmael” é para a revista “American Book Review” a expressão inicial mais famosa da história da literatura. A frase está no clássico Moby Dick, publicado em 1851 pelo romancista, contista e poeta americano Herman Melville. O livro, que é repleto de referências bíblicas, narra, por intermédio de Ishmael, como um grupo de caçadores de baleias embarcou no Pequod, um dos muitos navios baleeiros da época. O comércio de caça à baleia era responsável por boa parte da economia dos Estados Unidos no período retratado no romance. Vários arpoadores, provenientes dos mais diversos pontos do globo, foram contratados para o que, conforme pensavam, seria apenas mais uma viagem de caça, com único objetivo de capturar baleias. Entretanto, em breve os arpoadores tomam conhecimento de que o objetivo de Ahab, o misterioso capitão do Pequod, não é uma viagem em busca de lucro, mas de vingança: Ahab quer localizar e destruir um enorme cachalote branco, denominada Moby Dick, que algum tempo antes o mutilara, destruindo uma de suas pernas. Contra todo e qualquer bom senso, o Capitão Ahab levará adiante seu irreprimível desejo de vingança, que culminará em desgraça.

A vingança se traduz como o desejo de punir e castigar o outro em decorrência de algum mal e também pode ser considerada um superlativo do ressentimento e é uma característica comum de pessoas que vivem presas ao passado ou que deixam de viver sua própria vida em função de uma vingança que nunca acaba, porque a pessoa acredita que ainda não causou o dano suficiente ao seu agressor. Assim, a vingança é uma tentativa falida de equilibrar a balança, pois, por mais ajustes que se façam, ela sempre ficará desequilibrada, já que a pessoa ferida se sentirá em inferioridade e por baixo de quem causou o mal, por isso tentará ferir o outro para recuperar novamente a sua posição inicial de equilíbrio ou alcançar a sua aparente superioridade.

Qualquer tipo de vingança, antes de ser uma realidade, é um coquetel de emoções negativas: ódio, raiva, rancor, ira, mágoa e desespero. É um aglomerado de veneno que destrói as coisas mais puras que o ser humano tem. É como um ácido que corrói valores, princípios e principalmente a paz do coração. Uma mágoa alimentada constantemente pelo sentimento de revolta aumenta as dores emocionais e dificulta o processo de cicatrização de uma ferida aberta, de modo que a vingança pode provocar altos níveis de ansiedade, depressão, obsessão, compulsão, estresse e inúmeras outras doenças.

Hamurabi, rei da Babilônia, no século XVIII a.C., é o autor de 282 leis, que ficaram conhecidas como Código de Hamurabi, baseadas na lei de talião, pena antiga pela qual se vingava o delito, infligindo ao delinquente o mesmo dano ou mal que ele praticava; o “olho por olho, dente por dente” era a base desse entendimento de justiça. Essa expressão também se encontra na Bíblia, mais concretamente em Êxodo 21,24. No entanto, essas coisas mudaram com a vinda de Jesus e da Nova Aliança. Em Mateus 5,38-39, Jesus disse: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”. Jesus elevou, desta feita, a lei a um nível mais alto, revelando seu propósito final, ou seja, eliminar a vingança e o ódio. A eliminação da vingança na sociedade deve começar com os seguidores de Cristo. Quando cristãos se tornam o objeto de ação do mal, espera-se que não reajam de igual modo. Esse é um tipo de resistência passiva; resistir ao mal sem retaliação.

A obsessão de Ahab por vingança o faz esquecer-se dos valores ético-morais, do companheirismo, da compaixão e do amor pelo próximo, pondo em risco toda a sua tripulação para atingir seu único objetivo, matar a baleia branca. E isso o envenenou. Aqui vale a frase famosa do “genial filósofo” da pós-modernidade, Seu Madruga: “A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena”.

Pe. Enéas de Camargo Bête

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