Espiritualidade e Literatura (3): Os Miseráveis e a misericórdia que não é contrária à justiça

“O inspector Javert é uma das personagens principais do romance Os Miseráveis, de Victor Hugo. Metódico e racionalista ao extremo, Javert é um homem cego pela lei e pela ordem e dedica a sua vida a combater o crime. Era filho de criminosos, tendo nascido na prisão. Por isso considerava que seria sempre excluído da sociedade, sobrando-lhe apenas dois caminhos: tornar-se um criminoso ou ser um protetor da lei, pois são os dois caminhos que sempre estarão a margem da sociedade (um por agredi-la e outro por protegê-la). Opta por seguir carreira na polícia.

Para o inspetor Javert, a Lei era a sua religião, por isso ele perseguia Jean Valjean (leia artigo anterior). Para ele, prender Valjean era uma questão de fé. Fé nas leis que regiam os homens, nas leis que organizavam a sociedade, nas leis que determinavam com tanta clareza o que era certo e errado em um mundo tão complexo: “Javert era um caráter completo; não admitia rugas nem nos seus deveres, nem no seu uniforme; metódico com os criminosos e intransigente com os botões da roupa […] Tinha atrás de si a autoridade, a razão, a coisa julgada, a consciência legal, a vindita pública […]; protegia a ordem, fazia sair da lei o raio, vingava a sociedade, dava mão forte ao princípio absoluto”.

No decorrer da obra ele é feito prisioneiro em uma barricada de revoltosos nas ruas de Paris. Valjean é incubido de cumprir a sentença de morte de Javert, mas, por já ter experimentado a misericórdia em sua vida, decide libertar o inspetor. Pouco tempo depois, após o fim da revolta, agora é Javert que tem nova oportunidade de prender Valjean, mas questiona-se sobre o que de fato é a justiça e a misericórdia.

No Evangelho, vemos sempre debates entre Jesus e os fariseus. O Senhor tentou levar a Boa Nova a eles e aos escribas. Os fariseus eram maus? Nenhum deles queria ser mau, ao contrário, eles queriam ser perfeitos, praticar toda a lei com perfeição. Mas, além das leis deixadas por Deus, eles foram criando outras leis e normas; de forma que era praticamente impossível cumprir tudo aquilo. Posicionando-se diante do povo como perfeitos praticantes da lei, mas não conseguindo cumpri-las eles próprios, foram tornando-se hipócritas: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque daí o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mt 23,23).

É claro que a exortação de Jesus não significava um desprezo à lei, mas a prerrogativa de que misericórdia e justiça caminham juntas: “Não será inútil recordar a relação entre justiça e misericórdia. Não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões duma única realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor […] Para superar a perspectiva legalista, seria preciso lembrar que, na Sagrada Escritura, a justiça é concebida essencialmente como um abandonar-se confiante à vontade de Deus” (Papa Francisco. Misericordiae Vultus).

O inspetor Javert não conseguiu entender isso na obra e por isso seu fim foi triste e trágico.

Que o Senhor nos livre de um coração duro e da incapacidade de perceber que a “misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar” (Idem).

Pe. Enéas de Camargo Bête

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