Espiritualidade e Literatura (2): Os Miseráveis e a misericórdia como um encontro

“A estupenda obra Os Miseráveis, do escritor francês Victor Hugo, foi escrita em 1862. Instintivamente, não seria engano associar a miséria social com os miseráveis do título, porém, há muito mais implícito aí. A miséria é a da alma, presa num mundo sem misericórdia.

O livro conta a saga de Jean Valjean, um condenado a 19 anos de trabalhos forçados por roubar um pão. Depois de cumprir sua pena, ele é posto em liberdade condicional, mas continua a ser tratado como um bandido pela sociedade. Sozinho, sem trabalho, com fome e frio, em sua alma crescem a amargura e o rancor. O rumo de sua vida muda após a acolhida amorosa de um Bispo, o Monsenhor Bienvenu Myriel, que o trata como um igual e o perdoa de um novo roubo: “Lembra-te disto meu irmão, vê nisto um desígnio superior. Deves usar esta prata preciosa para te tornares um homem honesto. Pelo testemunho dos mártires, pela Paixão e pelo Sangue, Deus ergueu-te da escuridão: eu comprei a tua alma para Deus”.

O amor e a misericórdia do Bispo atingem em cheio a alma de Jean Valjean, tanto que a partir desse momento ele inicia sua jornada pela redenção. Assim, abandonando sua antiga identidade e tornando-se um respeitável empresário e prefeito de uma cidadezinha nos arredores de Paris, acaba por demonstrar misericórdia a Fantine, por sua extrema pobreza e compromete-se, com o óbvio desta, a criar sua filha, Cosette. Tudo isso vai se desenvolvendo sob a sombra da perseguição do inspetor Javert (no próximo artigo falaremos dele).

A trajetória de Valjean rumo à redenção é também a nossa, na aceitação da misericórdia divina e na tentativa de imitá-la em nossas ações. No livro podemos resumir em quatro os momentos memoráveis de um encontro entre o protagonista e a misericórdia: na hora da conversão, no momento de revelar a sua identidade para salvar um inocente, na petição pelo seu jovem oponente do seu amor paternal por Cosette e no enlace final.

Como sabemos, a misericórdia divina é a qualidade como que predominante em Deus. Ela banha o homem com um gesto de acolhida indescritível, que inclui compaixão, perdão, clemência, piedade, paciência, ternura e redenção. Jesus é aquele que vem confirmar a misericórdia do Pai. Tanto assim que a expressão movido de compaixão, aparece, no mínimo, seis vezes, nos Evangelhos, confirmando a misericórdia de Deus. Jesus é a misericórdia de Deus feita carne; uma misericórdia, que Ele exprimiu, realizou e comunicou em todos os momentos da sua vida terrena: “O lugar privilegiado do encontro é a carícia da misericórdia de Jesus Cristo para com o meu pecado. E, por isso, algumas vezes me ouvistes dizer que o lugar privilegiado do encontro com Jesus Cristo é o meu pecado. É graças a este abraço de misericórdia que dá vontade de responder e de mudar, e que pode surgir uma vida diferente (…) A moral cristã é resposta, é a resposta comovida frente a uma misericórdia surpreendente, imprevisível, até mesmo ‘injusta’ segundo os critérios humanos, de Alguém que me conhece, conhece as minhas traições e me quer bem ainda assim, me estima, me abraça, me chama de novo, espera em mim, espera de mim” (Papa Francisco. Audiência 7 de março de 2015).

A misericórdia demonstrada pelo Bispo Bienvenu tem grande poder sobre a vida de Valjean. Victor Hugo acerta no alvo ao fazer o Bispo encarnar a Misericórdia de Deus. Sua atitude estabelece uma verdade que percorrerá todo o livro: só o amor tem poder de transformar, pois, “bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7)”.

Padre Enéas de Camargo Bête

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