Espiritualidade e Literatura (1): Dom Quixote e o Relativismo

“`Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco, e galgo corredor`. Assim começa um dos livros mais populares de todos os tempos. Estima-se que só esteja atrás da Bíblia no ranking dos best-sellers mundiais. Esse livro é “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha”, do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra. O livro, lançado em 1605, inaugurou o romance moderno e hoje conta com muitas versões traduzidas para inúmeras línguas.

De tanto ler livros de cavalaria, o Quixote intoxicado por histórias lancinantes construiu uma verdade própria subvertendo a ordem real desejoso de converter-se em um cavaleiro andante, tornando-se a sua própria medida, como diria Protágoras, o pai do relativismo grego. Só como exemplos o personagem: escolhe para si mesmo o nome de Dom Quixote (seu nome seria Quijada, Quesada, ou Quijana); nomeia seu cavalo magrelo de Rocinante; recruta Sancho Pança – um fazendeiro humilde – para ser seu escudeiro; vê Dulcinéia Toboso, uma lavadeira gorda, peluda e masculina, como uma donzela bela e delicada; luta contra moinhos de vento achando que eles são gigantes; apanha inúmeras vezes por confundir as pessoas com suas aventuras. O efeito é altamente humorístico e o encanto da obra nasce do descompasso entre o idealismo do protagonista e a realidade na qual ele atua.

Na edição comemorativa do Quarto Centenário, Mario Vargas Llosa escreveu um prefácio, no qual teve a brilhante intuição de dizer que o Dom Quixote é um romance para os nossos dias. Concordo com o escritor peruano e entre tantas possibilidades de interpretação do engenhoso fidalgo gostaria de enfatizar a sua atualidade em tempos de ditadura do relativismo.

O relativismo é uma corrente de pensamento que postula o caráter multi-interpretativo que os fenômenos podem adquirir a depender da relação ou intencionalidade que se estabelece entre o sujeito cognoscente e o objeto a ser conhecido, ou seja, a verdade não está no ser em si mesmo, mas no sujeito que o define. Vide como exemplos disso a ideologia de gênero, a descaracterização do feto com ser humano e a baderna moral em que vivemos.

Afirma-se hoje que tudo é relativo, exceto o próprio relativismo. E aí está a sua própria mentira. Se a verdade for relativa, qualquer um é livre para acreditar no que quiser, menos defender que ela seja absoluta. Não existindo valores absolutos nem direitos objetivos, a vida humana reduz-se a um hedonismo espasmódico e à satisfação egoísta de instintos e necessidades subjetivas, que aparecem sob a forma de novos direitos: “Se dissermos, que todo conhecimento é dado pela percepção, é o que cada pessoa acredita perceber, a consequência é não haver possibilidade objetiva de uma opinião estar errada” (Francisco Razzo. Contra o Aborto, p.40). São João Paulo II chegou a afirmar que por conta do relativismo estava assistindo “a uma apostasia silenciosa por parte do homem autossuficiente que vive como se Deus não existisse” (Ecclesia in Europa, 9).

Para nós, católicos, negar a verdade é negar o próprio Deus, é negar a Jesus Cristo: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14,6). Santo Tomás de Aquino, que tratou sobre a verdade em quatro de suas obras, escritas em diferentes épocas de sua vida, cunhará a expressão: “Veritas est adaequatio intellectus et rei, a verdade é a adequação entre o intelecto e as coisas” (Suma Teológica. I,16,2,C). Explicando com um exemplo limitado: dois mais dois são quatro, não porque eu acho que seja assim, mas por que é a realidade dessa operação matemática, portanto, quando eu entendo essa conta meu intelecto encontra a verdade. Assim, afirma São Tomás: “a verdade, produzida na inteligência pelas coisas criadas, não depende do juízo da alma, e sim da própria existência das coisas” (Sobre a verdade, q.1, a. 2, ad 3).

Por mais que seja um deleite acompanhar as peripécias de Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura, no livro de Cervantes, viver conforme o personagem seria romper com a estrutura da realidade, do ser das coisas trazendo por consequência o próprio sofrimento e o alheio (vide na obra o desgaste causado pelo aventureiro à sobrinha, ao padre e ao barbeiro), mesmo acreditando estar participando de aventuras epopeicas”.

Pe. Enéas de Camargo Bête

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