26 de julho de 2021

Jundiaí /SP

Esperança Sempre…

“Esperei firmemente no Senhor” (Sl 40[39],2)

 

Caros leitores e leitoras: tempos difíceis são estes que estamos passando. Tempo de enfrentamento de uma terrível pandemia, em que mais de 500 mil vidas foram ceifadas. Tempo de intolerância extrema, em que ideologias e posicionamentos levam à separação e agressão de toda ordem entre familiares e amigos. Tempo em que o diálogo muitas vezes tem sido substituído pelo fechamento em nós mesmos, nas nossas ideias e convicções pessoais. Tempo de muitas perdas, dores e lágrimas inconsoláveis. Um tempo em que precisamos cultivar a esperança para continuarmos vivendo e vislumbrando um amanhã não caótico, como também a certeza de dias melhores.

 

Diante de desafios e obstáculos, somos tentados a cair no desânimo e no cansaço interior. Se não ficarmos atentos e não cuidarmos de nós mesmos e uns dos outros, nossa vida pode se transformar num grande deserto, onde, aparentemente, as perspectivas e possibilidades de superação parecem estar cada vez mais distantes da nossa realidade.

 

É de suma importância que não “entreguemos os pontos”, que não desistamos de percorrer o nosso caminho, sobretudo as veredas estreitas da vida. As muralhas não podem nos tornar fracos. Pelo contrário, a cada pedra ou a cada espinho que encontrarmos, devemos renovar o nosso esforço e a nossa fé para que, mesmo feridos, continuemos prosseguindo a nossa caminhada, vivendo um dia por vez. Pois, “a cada dia basta seu cuidado” (cf. Mt 6,34).

 

Com tudo o que estamos vivendo vale a pena a reflexão, a partir de uma pergunta: “o que é a esperança?” Será que é simplesmente ficar aguardando a melhora das coisas como que num passe de mágica? Ou então, simplesmente, entregar tudo “nas mãos de Deus”, deixando toda a responsabilidade para Ele?

 

Certa vez escreveu o filósofo francês Gabriel Marcel (1889-1973): “Amar a um ser é esperar dele algo indefinível, imprevisível; é, por sua vez, dar-lhe, de certo modo, o meio pelo qual poderá responder a esta espera. Por paradoxal que possa parecer, esperar é, em certo modo, oferecer”. Ou seja, a esperança passa pela oportunidade que dou a mim mesmo e aos outros de terem uma nova chance. Ninguém é para sempre um “caso perdido”: todos nós podemos dar passos para uma vida nova, para um recomeço. Eu preciso ter a esperança de que o outro possa ter virtudes e qualidades que não tenho e que tenha condições de ajudar-me. Quando eu falho em algo, não posso simplesmente dar a sentença de que não sou mais capaz de nada. Pelo contrário, só erra quem faz, quem tenta acertar. Os erros ajudam no nosso aprimoramento. Não é toda hora que o mestre da cozinha acerta em todos os temperos, que o músico toca certo todas as notas, que o poeta está sempre inspirado na construção em dar vida às palavras. A esperança é também crer que podemos aperfeiçoar, aprender com maestria e realizar coisas inacreditáveis e inimagináveis.

 

Por outro lado, é muito interessante notar como a ideia ou a sensação de esperança brota no ser humano a partir do recôndito da desesperança, ou seja, quando estamos quase “sem saída”, quando todas as portas parecem estar fechadas, ou quando pensamos que já “tentamos de tudo” e que passamos por “todos os caminhos” e tentamos todas as alternativas possíveis. Parece que é exatamente aí, quase como de um modo contraditório, em situações assim, que o nosso ser clama por uma atitude esperançosa. Dá-nos a impressão – e a experiência comprova bem isso – que aí, mais do que nunca, o nosso ser aspira à esperança e possui uma sede insaciável dela.

 

Esperar não se trata, então, de uma postura passiva, mas de uma atitude total e essencialmente ativa. Esperar é mais do que receber, como afirma o já citado filósofo parisiense Gabriel Marcel: “esperar é oferecer”, isto é, oferecer chances de um novo rumo para nós e para os outros. Ter esperança é ter a capacidade de ver e acreditar no que as pessoas têm de melhor. De fato, a esperança nos faz ver luz e novos caminhos em nós e nos outros. Por isso “todas as vidas importam”, porque em toda vida e em cada história de cada pessoa há uma fagulha de luz transcendental. E aqui cabe justamente a célebre afirmação do grande pensador brasileiro Paulo Freire (1921-1997): “Esperança não provém do verbo ‘esperar’, mas do verbo ‘esperançar’, pois é sempre uma postura ativa”. A esperança nos capacita para tomarmos iniciativas e sermos criativos. Exatamente por isso, que a cada dia e a cada momento de nossa vida devemos renovar, dentro de nós mesmos, a vontade de termos esperança sempre!

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CÚRIA DIOCESANA
DE JUNDIAÍ

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