25 de setembro de 2021

Jundiaí /SP

Confira!

A CAMPANHA DA FRATERNIDADE ECUMÊNICA 2021

“Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14a)

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Com a celebração da Quarta-feira das Cinzas, início da Quaresma, a Igreja do Brasil é chamada a viver mais uma Campanha da Fraternidade. Este “mutirão continental de evangelização” surgiu pela primeira vez em 1964. Portanto, neste ano celebramos a 57ª edição deste evento, com o objetivo de incrementar o apelo quaresmal de conversão pessoal e de transformação social. Neste ano se realiza a quinta edição da Campanha da Fraternidade Ecumênica, pois a partir do ano de 2000, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) decidiu celebrá-la em união com os cristãos de outras igrejas a cada cinco anos. Neste ano o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica é: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, e o lema: “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14a). Cabe ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), formado por várias igrejas cristãs, entre as quais, a Igreja Católica, a preparação do material a ser refletido, aprofundado e celebrado neste tempo quaresmal.

  1. A Quaresma e a Campanha da Fraternidade

 Como em anos passados, a temática da Campanha da Fraternidade pode muito nos ajudar a viver o espírito genuíno da Quaresma, 40 dias de tempo forte de conversão e de autorreflexão. Na sua Mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Francisco salientou que “o jejum, a oração e a esmola – tal como são apresentados por Jesus na sua pregação (cf. Mt 6,1-18) – são as condições para a nossa conversão e sua expressão. O caminho da pobreza e da privação (o jejum), a atenção e os gestos de amor pelo homem ferido (a esmola) e o diálogo filial com o Pai (a oração) permitem-nos encarnar uma fé sincera, uma esperança viva e uma caridade operosa”. E desta maneira, convertendo-nos para o amor e a justiça, poderemos renovar a fé batismal, na solene celebração da Vigília Pascal. Crescer na fraternidade, grande sonho de Jesus Cristo para a humanidade, é o resultado esperado de cada Quaresma.

Como, então, a Campanha da Fraternidade, seja ecumênica ou não, pode ajudar-nos a viver este espírito quaresmal? A conversão a Jesus Cristo não é um processo mágico apenas de um momento, algo superficial e puramente exterior, mas é um processo permanente, profundo e diário. O Evangelho nos questiona sobre a nossa forma de vivermos a nossa fé na Pessoa de Jesus Cristo e qual a prática do amor para com Ele e para com os nossos irmãos, principalmente os mais necessitados e excluídos. “Eu que estava presente na pessoa deles” (cf. Mt 25,31-46) nos dirá o Senhor no dia do juízo universal, quando seremos julgados a partir da caridade em relação ao irmão. Como disse o apóstolo São João: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). Esta, pois, é a grande lição de toda Campanha da Fraternidade: a partir de uma determinada situação social degradante e nefasta em nosso país e que desafia o projeto de Jesus que veio trazer “a vida, e a vida em abundância” (cf. Jo 10,10) para todos, somos chamados a nos converter ao irmão, pois somente a partir da vivência da verdadeira fraternidade para com o próximo é que podemos chegar ao amor de Deus, convertendo-nos de forma verdadeira e autêntica.

  1. Críticas à Campanha da Fraternidade Ecumênica – 2021

Infelizmente, antes mesmo do lançamento da Campanha da Fraternidade Ecumênica, neste tempo de polarização e fanatismos, em que as pessoas expõem o que pensam nos meios de comunicação e agridem aqueles que pensam diferente, considerando-os até como inimigos, surgiram críticas muito pesadas contra a proposta deste evento eclesial. Tal comportamento levou a uma onda de outras ações, que vão da produção de fake news (notícias falsas e enganosas) que tentam desmerecer membros do CONIC até a ataques desenfreados à CNBB. Tudo isto causou um desserviço, dividindo e confundindo o povo cristão. Se a Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano teve como objetivo principal suscitar o diálogo entre as igrejas cristãs e promover relacionamentos mais harmoniosos e fraternos entre todos, o efeito final está sendo contrário: continuamos muito divididos entre nós, mesmo na Igreja Católica, e estamos muito longe de cumprir o desejo do Senhor: “Que todos sejam um” (Jo 17,21).

Parece-me que são três os principais campos de questionamento à Campanha da Fraternidade deste ano, aprovada pelos Bispos do Brasil, reunidos na 57ª Assembleia Geral de 2019, para ser ecumênica. Em primeiro lugar, alguns acham que a Campanha da Fraternidade promovida pelos Bispos do Brasil desloca o foco da Quaresma: a conversão interior e comunitária. Em parte, isto pode ter um fundo de verdade, pois há anos se discute, até na CNBB, se a Igreja do Brasil deve realizar esta Campanha todo ano e com toda esta envergadura, apesar de, como também já afirmei antes, haver um nexo essencial e indissolúvel entre a conversão e a prática da fraternidade. Em segundo, alguns católicos e cristãos de outras igrejas cristãs não aceitam o diálogo ecumênico sadio e autêntico entre todos aqueles que professam a mesma fé em Jesus Cristo, tão defendido pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e pelos últimos Papas. O Papa Francisco, numa sucessão de gestos, encontros, discursos e declarações comuns com homens e mulheres de diferentes igrejas, tem mostrado continuamente que a construção da unidade visível da Igreja de Cristo é uma das prioridades do seu pontificado. Como ele chegou a afirmar: “Assim como seguimos o mesmo Senhor, compreendemos cada vez mais que o ecumenismo é um caminho, um caminho que, como os vários Pontífices constantemente sublinharam desde o Concílio Vaticano II, é irreversível. Este não é um caminho opcional” (Discurso do Papa no dia 19/01/2019). Por fim, causaram estranheza e forte questionamentos da parte de católicos certas afirmações ambíguas, mal formuladas do Texto-Base da Campanha deste ano e contrárias a pontos essenciais e fundamentais da doutrina da Igreja Católica. A Presidência da CNBB afirmou, numa nota datada de 9 de fevereiro deste ano, que “o Texto-Base de 2021 é resultado da tarefa desempenhada pelo CONIC” e do qual a Igreja Católica é membro, como também outras igrejas cristãs. O Texto-Base não representa o ensinamento oficial da Igreja Católica, e por isso, não apresenta uma linguagem predominantemente católica. É absolutamente certo que a Igreja Católica não pode abrir mão jamais de certas verdades que ela defende, como por exemplo: a defesa da vida desde a concepção até o seu ocaso natural e a não aceitação da ideologia de gênero. O Texto-Base é apenas um texto de cunho ecumênico para ser refletido, aprofundado, questionado, mas sem deixar de ser um texto muito rico nas suas reflexões sobre a denúncia de diferentes violências contra o ser humano e a beleza e a força do diálogo como caminho de relações mais amorosas entre nós.

  1. O foco da Campanha da Fraternidade Ecumênica: o “diálogo”

Penso ser lamentável que toda esta crítica à Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 venha tirar a sua força e o seu foco centrado no tema do “diálogo”: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”. Podemos viver as inúmeras riquezas desta Campanha neste itinerário quaresmal, e ainda mais nesta crise tão grave da pandemia do coronavírus que pode nos isolar dos outros, tornando-nos indiferentes ao sofrimento alheio, procurando deixar para trás o egoísmo e a busca dos próprios interesses, nossas vaidades, nossos preceitos, nossa intolerância, nossa mania de julgar e condenar… Podemos fazer do diálogo uma saída de nós mesmos para escutar e acolher o outro na sua diferença, criar vínculos com outras pessoas, conhecer e aceitar seu modo de ser e de pensar. Tudo isto pode nos enriquecer enormemente, tornando-nos mais humanos e mais cristãos. Como precisamos deste diálogo amoroso e respeitoso em nossos lares, em nossos locais de trabalho, em nossos encontros, em nossas reuniões, em nossas comunidades, em nossa querida e amada Diocese de Jundiaí, que neste ano é chamada a retomar o processo da comunhão e da participação, realizando as Assembleias em vários níveis da Igreja, visando à elaboração do novo Plano Diocesano da Ação Evangelizadora. Sem diálogo, nada disto vai acontecer!

  1. As palavras do Papa Francisco

Por fim, é importante lembrar as palavras encorajadoras do Papa Francisco, que enviou uma belíssima Mensagem aos brasileiros, datada de 17 de fevereiro, por ocasião do início da Quaresma e da abertura da Campanha da Fraternidade deste ano: somos todos convidados a “‘sentar-se a escutar o outro’ e, assim, superar os obstáculos de um mundo que é muitas vezes ‘um mundo surdo’. (…) Por outro lado, ao promover o diálogo como compromisso de amor, a Campanha da Fraternidade lembra que são os cristãos os primeiros a ter que dar exemplo, começando pela prática do diálogo ecumênico. (…) É, pois, motivo de esperança, o fato de que este ano, pela quinta vez, a Campanha da Fraternidade seja realizada com as Igrejas que fazem parte do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC). (…) A fecundidade do nosso testemunho dependerá também de nossa capacidade de dialogar, encontrar pontos de união e os traduzir em ações em favor da vida, de modo especial, a vida dos mais vulneráveis”. O Santo Padre conclui a sua Mensagem desejando aos brasileiros “a graça de uma frutuosa Campanha da Fraternidade Ecumênica”.

Que tenhamos, uma vez mais, uma “frutuosa” e abençoada Quaresma, vivendo os apelos da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano, para que Cristo, nossa Paz, fortaleça nossa união e “do que era dividido, Ele faça uma unidade” (cf. Ef 2,14a), tornando-nos cada vez mais “um só Corpo e um só Espírito”.

E a todos abençoo.

Dom Vicente Costa

Bispo Diocesano de Jundiaí

Revista O VERBO – Edição 551 – FEV/2021.E

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