Aos meus irmãos presbíteros

Publicamos, a seguir, os principais trechos da carta do Santo Padre aos presbíteros, por ocasião dos cento e sessenta anos da morte do Cura d’Ars.

Comemoramos os cento e sessenta anos da morte do Santo Cura d’Ars, que Pio XI propôs como patrono de todos os párocos do mundo. Quero, na sua memória litúrgica, dirigir esta Carta não só aos párocos, mas a todos vós, irmãos presbíteros, que sem fazer alarde “deixais tudo” para vos empenhar na vida cotidiana das vossas comunidades.

Tribulação
“Vi a opressão do meu povo” (Ex 3, 7).

Nos últimos tempos, pudemos ouvir mais claramente o clamor de irmãos nossos, vítimas de abusos de poder, de consciência e sexuais por parte de ministros ordenados.

Como sabeis, estamos firmemente empenhados na atuação das reformas necessárias para promover, a partir da raiz, uma cultura baseada no cuidado pastoral, de tal forma que a cultura do abuso não consiga encontrar espaço para desenvolver-se e, menos ainda, perpetuar-se.

Sem negar nem ignorar o dano causado por alguns dos nossos irmãos, seria injusto não reconhecer que tantos sacerdotes, de maneira constante e íntegra, oferecem tudo o que são e têm pelo bem dos outros (cf. 2Cor 12, 15)…

O Senhor está purificando a sua Esposa e, a todos, nos está convertendo a Ele. Permite-nos experimentar a prova, para compreendermos que, sem Ele, somos pó. Está-nos salvando da hipocrisia e da espiritualidade das aparências.

Gratidão
Não cesso de dar graças a Deus por vós” (Ef 1, 16).

A gratidão é sempre uma “arma poderosa”. Só se formos capazes de contemplar e agradecer concretamente todos os gestos de amor, generosidade, solidariedade e confiança, bem como de perdão, paciência, suportação e compaixão com que fomos tratados, é que deixaremos o Espírito obsequiar-nos com aquele ar puro capaz de renovar (e não empachar) a nossa vida e missão.

Irmãos, obrigado pela vossa fidelidade aos compromissos assumidos. Obrigado pela alegria com que soubestes entregar a vossa vida… Obrigado por procurardes reforçar os vínculos de fraternidade e amizade no presbitério e com o vosso bispo…

Obrigado pelo testemunho de perseverança e suportação (hypomoné) na dedicação pastoral, que frequentemente, movidos pela ousadia (parresía) do pastor, nos leva a lutar com o Senhor na oração…

Obrigado por celebrar diariamente a Eucaristia e apascentar com misericórdia no sacramento da Reconciliação, sem rigorismos nem laxismos. Obrigado por ungir e anunciar a todos, com ardor, o Evangelho de Jesus Cristo…

Obrigado pelas vezes em que, deixando-vos entranhadamente comover, acolhestes os caídos, curastes as feridas, dando calor aos seus corações, mostrando ternura e compaixão… Demos graças também pela santidade do Povo fiel de Deus, que somos convidados a apascentar e através do qual também o Senhor nos apascenta e cuida de nós…

Ardor
“Tenham ânimo nos seus corações” (Col 2, 2).

Perante experiências dolorosas, todos nós precisamos de conforto e encorajamento. Um bom “teste” para saber como está o nosso coração de pastor é perguntar-se como enfrentamos a dor. Sabemos que não é fácil permanecer diante do Senhor, deixando que o seu olhar percorra a nossa vida, cure o nosso coração ferido e lave os nossos pés impregnados pela mundanidade que se lhes aderiu ao longo do caminho e nos impede de caminhar. Irmãos, reconheçamos a nossa fragilidade, sim; mas deixemos que Jesus a transforme e nos projete sempre de novo para a missão.

Para manter o coração animado, gostaria de vos encorajar a que não negligenciásseis o acompanhamento espiritual, tendo um irmão com quem falar, confrontar-se, debater e discernir, com plena confiança e transparência, a propósito do próprio caminho; um irmão sábio, com quem fazer a experiência de se saber discípulo. Robustecei e nutri o vínculo com o vosso povo. Não vos isoleis do vosso povo nem dos presbitérios ou das comunidades. E menos ainda… encerrar-vos em grupos fechados e elitistas. Isto, no fim, asfixia e envenena o espírito.

 Louvor
“A minha alma glorifica o Senhor” (Lc 1, 46).

É impossível falar de gratidão e encorajamento sem contemplar Maria. Ela, mulher do coração traspassado (cf. Lc 2, 35), ensina-nos o louvor capaz de abrir o olhar para o futuro e devolver a esperança ao presente. Toda a sua vida ficou condensada no seu cântico de louvor (cf. Lc 1, 46-55), que somos convidados, também nós, a entoar como promessa de plenitude.

Contemplar Maria é voltar “a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto. N’Ela, vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentir importantes”.

Irmãos, mais uma vez vos digo que “não cesso de dar graças a Deus por vós” (Ef 1, 16)… Que o Senhor Jesus vos abençoe e a Virgem Santíssima vos guarde. E peço-vos, por favor, que não vos esqueçais de rezar por mim.

Papa Francisco

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *