A Teologia do Corpo (X): Amor e Fecundidade a partir da Humanae Vitae

“Publicada em 25 de julho de 1968, no auge da assim chamada “revolução sexual”, a Carta Encíclica Humanae Vitae, escrita pelo Beato Paulo VI, a propósito da vida humana e da regulação da natalidade, provocou reações contrastantes, recebendo desde o primeiro momento muitas críticas e contestações da parte da mídia secular. O documento não tem um apelo popular: a sua mensagem não é imediatamente atraente nem fácil de colocar em prática, mas descreve a alta vocação da família e da paternidade e maternidade responsável.

Uma das principais críticas seria a sua falta de sustentação antropológica. Contudo, São João Paulo II é quem se destacará como “defensor” da mesma e desenvolverá, ao longo dos anos, uma profunda antropologia a respeito da carta do Beato Paulo VI, principalmente através de sua Teologia do Corpo (TdC), mostrando que a encíclica quer salvaguardar a dignidade da pessoa humana: “Trata-se, aqui, da verdade, primeiro na dimensão ontológica (estrutura íntima) e, depois – em consequência- na dimensão subjetiva e psicológica (significado). O texto da Encíclica salienta que, no caso em questão, trata-se de uma norma da lei natural” (TdC, 11/07/1984).

São João Paulo II mostra, então, a sua vontade de conservar o ensinamento da Humanae Vitae como uma palavra válida para a Igreja e para os cristãos de hoje. O Papa convidou na TdC a não perder de vista “a missão da família” com perspicácia, habilidade e força mostrada na encíclica. Entre os grandes desafios que a família é chamada a enfrentar, o Papa citou o materialismo e estilos de vida que anulam a vida familiar, as quais são fruto de uma cultura de morte, que se lança contra a instituição familiar. A “falta de abertura à vida” é um dos males dos quais sofre a família que segue as sirenes do relativismo e da cultura do efêmero. O fechamento à vida torna-se, pois, um câncer ao interno da sociedade que envelhece e morre, já que cada ameaça à família é uma ameaça à sociedade.

Segundo São João Paulo II, o objetivo do Beato Paulo VI, que estava sendo questionado pelos movimentos de liberação sexual, pela difusão da pílula abortiva, pelos alarmes sobre o bom demográfico e por teólogos progressistas, foi aquele de reforçar a sacralidade da vida e da sexualidade humana e estabelecer a doutrina católica no campo da moral conjugal, com particular referência à regulação da natalidade. Reforçando o juízo negativo a respeito do aborto, da esterilização e dos métodos anticoncepcionais, sublinhando a inseparabilidade entre o aspecto unitivo e procriativo do ato conjugal estabelecendo que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida.

Já a chamada “paternidade responsável” se exercita, seja com a deliberação ponderada e generosa de fazer crescer uma família numerosa, seja com a decisão, tomada por graves motivos e com respeito à lei moral, de evitar temporariamente ou também por tempo indeterminado, um novo nascimento. No reconhecer os próprios deveres para com Deus, para consigo próprios, para com a família e para com a sociedade os cônjuges não são livres para procederem a seu próprio bel-prazer, como se pudessem determinar, de maneira absolutamente autônoma, as vias honestas ou não a seguir, mas devem, sim, conformar o seu agir com a intenção criadora de Deus, expressa na própria natureza do matrimônio e dos seus atos e manifestada pelo ensino constante da Igreja.

Desta forma, a Encíclica Humanae Vitae permite-nos fazer um esboço da espiritualidade conjugal. Este é o clima humano e sobrenatural em que  – endo em conta a ordem ‘biológica’ e, contemporaneamente, com base na castidade sustentada pelo donum pietatis, se plasma a interior harmonia do matrimônio, no respeito por aquilo a que a Encíclica chama ‘dúplice significado do ato conjugal’. Esta harmonia significa que os cônjuges convivem na interior verdade da ‘linguagem do corpo’. A Encíclica Humanae Vitae proclama que é inseparável a conexão entre a verdade” e o amor” (TdC, 21/11/1984).

Terminamos aqui nossa pequena reflexão sobre a Teologia do Corpo de São João Paulo II. A partir da próxima edição de “O Verbo” nos dedicaremos à Carta Apostólica Gaudete Exsultate, do Papa Francisco, sobre a chamada à santidade no mundo atual”.

Pe. Enéas de Camargo Bête

 

 

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