A Teologia do Corpo (VI): A Redenção do Coração

“Caros amigos, o segundo ciclo de catequeses do Papa São João Paulo II sobre a Teologia do Corpo se concentra em aprofundar a redenção do coração humano. Nessas catequeses o papa apresenta a nossa humanidade como a conhecemos e vivemos hoje: Homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus, que é Amor. O corpo do homem e da mulher são uma imagem de Deus e um chamado à doarem-se um ao outro no Amor. Contudo, o pecado original debilitou a afetividade humana. Com a sua redenção, Cristo restaura e eleva as forças humanas para a vivência plena e purificada de nossa corporeidade, afetividade e sexualidade.

Este é o ciclo mais longo de catequeses e o texto bíblico principal desta etapa é Mt 5,27-28. Nele Jesus afirma: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração.”

O desejo a que Jesus se refere na passagem acima do evangelista Mateus é o desejo desvirtuado, que reduz a pessoa a um mero objeto de prazer. Nas palavras de São João Paulo II: “O ‘coração’ humano experimenta o grau desta limitação ou deformação, sobretudo no âmbito das relações recíprocas homem-mulher. Precisamente na experiência do ‘coração’, a feminilidade e a masculinidade parecem já não ser a expressão do espírito que tende para a comunhão pessoal, e se tornam só objeto de atração…” (Teologia do Corpo, 23 de Julho de 1980).

A Teologia do Corpo explica que o “coração” engloba toda a dimensão da nossa humanidade como a fonte e a força motriz das nossas intenções e ações. Cristo alerta que, mesmo que não haja ato efetivo, o desejo libidinoso, o desejo de luxúria que quer usar o outro como um objeto já é altamente pernicioso.

Isso significa que devemos ignorar ou reprimir os desejos como se fossem maus? Não. Isso significa que podemos (e devemos) educá-los e, para tanto, Cristo apela para o homem interior, para o seu coração. Assim, as palavras de Cristo convidam a uma nova ética, que não é apenas um verniz, mas atinge o amago do coração humano, trazendo assim a força da Redenção autêntica de Jesus: “A redenção é uma verdade, uma realidade, em cujo nome o homem deve sentir-se chamado, e chamado com eficácia. Deve dar-se conta de tal chamada até mediante as palavras de Cristo segundo Mateus 5,27-28, relidas no pleno contexto da revelação do corpo. O homem deve sentir-se chamado a redescobrir, mais, a realizar o significado esponsal do corpo e a exprimir de tal modo a liberdade interior do dom, isto é, daquele estado e daquela força espiritual, que derivam do domínio da concupiscência da carne.(…) É importante que ele, precisamente no seu “coração”, não se sinta só acusado e entregue como presa à concupiscência da carne, mas que no mesmo coração se sinta chamado com energia. Chamado precisamente àquele supremo valor que é o amor. Chamado como pessoa na verdade da sua humanidade, portanto também na verdade da sua masculinidade e feminilidade, na verdade do seu corpo. Chamado naquela verdade que é patrimônio “do princípio”, patrimônio do seu coração, mais profundo que a pecaminosidade herdada, mais profundo que a tríplice concupiscência. As palavras de Cristo, enquadradas na inteira realidade da criação e da redenção, reatualizam aquela herança mais profunda e dão-lhe real força na vida do homem” (Teologia do Corpo, 29 de Outubro de 1980).

Pe. Enéas de Camargo Bête

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