A Teologia do Corpo (IX): O celibato por amor ao reino dos céus (2)

“Jesus inaugurou o estado do celibato, assumindo Ele mesmo tal condição. São João Paulo II, em suas catequeses sobre a Teologia do Corpo (TdC), claramente fala sobre o celibato e sua importância, como uma das formas de o homem viver plenamente sua vocação, pois, todos somos chamados a amar, e é no estado de vida do matrimônio ou do celibato pelo Reino dos Céus que se encontra o meio concreto de vivermos a nossa vocação.

Na Igreja, a disciplina do celibato foi adotada paulatinamente, tendo sua primeira aparição oficial já no século VI, no Concílio de Elvira. No Concílio de Trento, no século XVI, o celibato foi adotado para toda a Igreja ocidental e incorporado ao direito canônico como disciplina para todo o clero. O documento do Vaticano II sobre os presbíteros justifica o celibato apontando-o “ao mesmo tempo como sinal e estímulo da caridade pastoral e fonte peculiar da fecundidade espiritual no mundo” (Presbyterorum Ordinis, 16). Outro documento, do mesmo Concílio, aponta-o como meio de serviço aos irmãos com um coração indiviso, pois o consagra somente a Deus (cf. Lumen Gentium, 42).

Desta forma, o celibato não pode ser definido negativamente, como se fosse mera renúncia ao matrimônio. Ele não é, em primeiro lugar, renúncia ao amor ou medo da sexualidade e do casamento, muito menos incapacidade para constituir uma família, mas a opção por uma forma de amar diferente da do matrimônio; Jesus Cristo foi celibatário e não renunciou ao amor. Por isso, o presbítero descobre outro amor e assim estrutura o seu projeto existencial, não constituindo família: `mediante a seriedade e a profundidade da decisão, mediante a severidade e a responsabilidade que ela comporta, transparece e reluz o amor: o amor como disponibilidade do dom exclusivo de si pelo ‘reino de Deus`. Todavia, nas palavras de Cristo tal amor parece estar velado por aquilo que, pelo contrário, é colocado por Cristo em primeiro plano. Cristo não esconde aos seus discípulos o fato de que a escolha da continência ‘por amor do Reino dos Céus’ é —vista nas categorias da temporalidade— uma renúncia. Aquele modo de falar aos discípulos, que formula claramente a verdade do seu ensinamento e das exigências nele contidas, é significativo para todo o Evangelho; e é precisamente ele a dar-lhe, além disso, um sinal e uma força tão convincentes. É próprio do coração humano aceitar as exigências, até difíceis, em nome do amor por um ideal e, sobretudo, em nome do amor para com a pessoa (o amor, de fato, é por essência orientado para a pessoa). E, portanto, naquele apelo para a continência ‘por amor do Reino dos Céus’, primeiro os mesmos discípulos e depois toda a Tradição viva da Igreja cedo descobrirão o amor que se refere a Cristo mesmo, como Esposo da Igreja, Esposo das almas, às quais Ele se deu a Si mesmo totalmente, no mistério da sua Páscoa e da Eucaristia (TdC, 21/04/1982)”.

Pe. Enéas de Camargo Bête

 

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