A Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate – (1) Introdução

“Caros amigos, uma Exortação Apostólica é um documento pastoral por meio do qual o Santo Padre se dirige à comunidade católica. Em geral, ela fornece indicações ou orientações sobre algum aspecto específico da vida da Igreja. Gaudete et exsultate (Alegrai-vos e exultai! – Mt 5,12) é a terceira Exortação Apostólica do Papa Francisco, já que a precederam a Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho-, em 2013 e a Amoris Laetitia -A Alegria do Amor-, em 2016. Datada de 19 de março de 2018, Solenidade de São José, e publicada em 9 de abril de 2018, “Sobre o chamado à santidade no mundo de hoje”, o documento tem como objetivo encorajar a santidade na vida cotidiana. O título Gaudete et Exsultate, “Alegrai-vos e exultai”, repete as palavras que Jesus dirige aos que são perseguidos ou humilhados por causa Dele (Mt 5,12).

Cinco são os capítulos da Exortação: 1- A chamada à Santidade; 2- Dois inimigos sutis da santidade; 3- À Luz do Mestre; 4- Algumas características da santidade no mundo atual; 5- Luta, vigilância e discernimento. Os 177 parágrafos não querem ser, adverte o próprio Papa, “um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções”, mas uma maneira de “fazer ressoar mais uma vez o chamado à santidade”, indicando “os seus riscos, desafios e oportunidades” (n. 2).

O documento começa com uma revisão e um lembrete sobre o que significa a chamada à santidade e, nesses parágrafos iniciais, enfatiza que não é um caminho apenas para pessoas religiosas ou consagradas, mas para todos. Nos restantes capítulos, centra-se nos modos de viver a santidade e assegura que Jesus dá os pontos-chaves, por meio das bem-aventuranças. Além disso, destaca diferentes virtudes humanas, como a paciência, a mansidão, a alegria, a luta interior e o sentido de humor.

O Santo Padre chama a atenção “para duas falsificações da santidade que poderiam extraviar-nos do correto caminho da santidade: o gnosticismo e o pelagianismo” (abordaremos nos próximos artigos). Essas heresias são formas de pensamentos e atitudes que dão origem “a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar” (n. 35). O Papa adverte que podemos encontrar estas atitudes dentro da própria Igreja: é típico dos gnósticos, por exemplo, ser é uma autocelebração de uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações. Para o Papa, trata-se de uma vaidosa superficialidade, que pretende reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura dominar tudo. E ao desencarnar o mistério, preferem um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo (cf. nn. 37-39); já os pelagianos são os que dão a impressão de que se pode tudo com a vontade humana, como se esta fosse algo puro, perfeito, omnipotente, a que se acrescenta a graça. O pelagianismo é uma vontade sem humildade que “sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas” ou por ser fiel “a um certo estilo católico” (cf. n. 49).

O Papa nos exorta pois a vivermos as Bem-Aventuranças como “a carteira de identidade do cristão”, e oferece pautas para viver estas recomendações de Jesus nos dias de hoje. “Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida” (n. 63). Ele mostra também algumas características indispensáveis da santidade no mundo atual, que constituem “grandes manifestações do amor a Deus e ao próximo, que considero particularmente importantes devido a alguns riscos e limites da cultura de hoje” (n. 111), que são a suportação, paciência e mansidão, a alegria e sentido de humor, a ousadia e o ardor, o viver em comunidade, e a oração constante.

No quinto capítulo, por fim, nos recorda o nosso “combate” contra o Maligno que, escreve ele, não é um mito, mas “um ser pessoal que nos atormenta” (n. 160-161): “Quem não quiser reconhecê-lo, ver-se-á exposto ao fracasso ou à mediocridade”. As maquinações do maligno devem ser contrastadas com a “vigilância”, usando as “armas poderosas” da oração, a adoração eucarística, os Sacramentos e com uma vida permeada pela caridade (n. 162). Importante, continua o Papa Francisco, é também o “discernimento”, particularmente em uma época “que oferece enormes possibilidades de ação e distração” – das viagens, ao tempo livre, ao uso descontrolado da tecnologia – “que não deixam espaços vazios onde ressoa a voz de Deus ”. O Santo Padre pede cuidados especiais para os jovens, muitas vezes “expostos a um constante zapping”, em mundos virtuais distantes da realidade (n. 167)”.

Pe. Enéas de Camargo Bête

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