27 de setembro de 2021

Jundiaí /SP

A encíclica Fratelli Tutti

“Deus é amor: quem permanece no amor, permanece nele” (1Jo 4,16).

 

Caros leitores e leitoras: quero, uma vez mais, refletir sobre a última Carta Encíclica publicada pelo Papa Francisco, dada a sua importância para a Igreja e o mundo atual. Depois das Encíclicas “Lumen fidei” (2013) e “Laudato Si’”(2015) – em cujo título ecoa o início do Cântico das Criaturas escrito por São Francisco de Assis, Fratelli tutti é o título que o Papa estabeleceu para sua nova Encíclica, dedicada à fraternidade e à amizade social. Assinada sobre o túmulo de São Francisco de Assis, no dia 3 de outubro deste ano, o Santo que viu a fraternidade em cada criatura de Deus. No início de sua Encíclica, o Papa Francisco afirma: “Este Santo do amor fraterno, da simplicidade e da alegria, que me inspirou a escrever a Encíclica ‘Laudato Si’’, volta a inspirar-me para dedicar esta nova Encíclica à fraternidade e à amizade social. Com efeito, São Francisco, que se sentia irmão do sol, do mar e do vento, sentia-se ainda mais unido aos que eram da sua própria carne. Semeou paz por toda a parte e andou junto dos pobres, abandonados, doentes, descartados, dos últimos” (n. 2).

Nesta Encíclica, o Papa Francisco resgata os principais documentos e pronunciamentos de seu pontificado, para falar da fraternidade humana, um projeto tão ausente de nosso mundo, mas ao mesmo tempo tão urgente. O texto tem como pano de fundo a crise atual, a pandemia da COVID-19. Porém, esta epidemia aparece apenas como contexto histórico, escancarando problemas já existentes, como a desigualdade entre nações, a indiferença com os mais pobres, as guerras, o drama dos migrantes, e os calorosos confrontos das redes sociais, por exemplo.

O Papa foi inspirado a escrever este documento por um episódio que mostra o coração sem fronteiras de São Francisco, acontecido há oitocentos anos, que foi a sua visita, apesar de sua pobreza, da distância e das diferenças de língua, cultura e religião, ao Sultão Malik-al-Kamil, no Egito. Em um momento histórico marcado pelas Cruzadas, o pobre de Assis teve a mesma atitude que pedia aos seus discípulos: sem negar a própria identidade, não fazer litígios nem contendas, mas ser submisso a toda a criatura humana por amor de Deus (cf. n. 3).

A Fratelli tutti conjuga, ao mesmo tempo, a fraternidade e a amizade social como o núcleo central do texto e do seu significado. O realismo que atravessa as páginas dilui todo romantismo vazio, sempre à espreita quando se trata de fraternidade. A fraternidade não é apenas uma emoção, ou um sentimento, ou uma ideia – por mais nobre que seja –, mas sim uma atitude cristã: “Para nós, essa fonte de dignidade humana e fraternidade está no Evangelho de Jesus Cristo. Dele brota, ‘para o pensamento cristão e para a ação da Igreja, o primado reservado à relação, ao encontro com o mistério sagrado do outro, à comunhão universal com a humanidade inteira, como vocação de todos” (n. 277).

O Santo Padre fala também sobre o princípio da capacidade de amar segundo uma dimensão universal. Trazendo mais uma vez à tona a cultura do encontro e de uma Igreja em saída, o Papa exorta cada um de nós a “sair de si mesmo” para encontrar nos outros “um acréscimo de ser” (cf. n. 88), abrindo-nos ao próximo, segundo o dinamismo da caridade, que nos faz tender para a comunhão universal. O aspecto mais importante em um encontro com o outro está em não só conhecer, mas procurar ouvir as pessoas, estar com elas, não apenas para lamentar, mas se deixar levar pela compaixão às que são mais vulneráveis.

Por fim, a Encíclica menciona alguns sonhos de integração que hoje fracassaram: a globalização conectou os indivíduos, mas não conseguiu superar o individualismo e formar comunidade e fraternidade, impondo um modelo cultural único (n. 12); o consumismo sem limites e o crescimento de novas e velhas ideologias (n. 13); a política que perdeu sua característica de discussão sadia sobre projetos de longo prazo para o bem comum e que se tornou um conjunto de estratégias que visam à destruição do outro, para obter posições que trarão benefícios ilegítimos para alguns (n. 15).

Enfim, a Fratelli Tutti provoca quem está acomodado frente aos problemas sociais. Principalmente neste tempo de pandemia e neste tempo litúrgico do Advento em preparação da vinda de Jesus, o nosso Salvador, este documento do Papa Francisco reacende a nossa esperança e estimula o nosso caminhar na fraternidade sem fronteiras.

Neste Advento convido a todos a lerem e estudarem o texto do nosso Papa.

De coração, desejo a todos um Santo Advento para colhermos um Feliz e Santo Natal, mesmo que desta vez, penso, será um Natal muito diferente dos outros que já experimentamos. Porém, o chamado de Jesus à fraternidade e à solidariedade continua sempre o mais, ou melhor, mais ardente nestes tempos atuais.

A todos abençoo.

Publicado no jornal A Federação em 03.12.2020.

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