A Direção Espiritual (I): Conceito e resumo histórico

Caros amigos, iniciamos uma série de textos sobre a direção espiritual.

A direção espiritual ou acompanhamento espiritual é uma prática empregada desde tempos antigos para encontrar a Deus e progredir na vida de santidade. A direção espiritual é um processo de transformação profunda e abrangente centrada na pessoa de Cristo, que atinge o homem interior e também o comportamento exterior enquanto manifestação da vida interior, e resulta na própria semelhança de Cristo. Ela depende claramente da ação do Espírito Santo, que é aquele que caminha conosco, dentro de nós, inclinando nossa vontade na direção da vontade de Deus. Sabemos, então, que só Deus pode dirigir, consertar e dar pleno sentido à nossa vida, mas Ele usa instrumentos, pessoas escolhidas e preparadas por Ele para serem como que canais da sua graça, e isso acontece na figura do diretor espiritual: “Busca o conselho de toda pessoa sensata, e não desprezes nenhum conselho salutar” (Tb 4,18); “O verdadeiro sábio ensina a seu próprio povo, e os frutos de sua inteligência são garantidos” (Eclo 37,23).

A Bíblia fornece as categorias de interpretação para darmos sentido à vida do ponto de vista de Deus e, por consequência, o fundamento da direção espiritual. O evangelho detalha a conversão de muitas pessoas que tiveram um encontro pessoal com o Senhor Jesus. Começando pelos próprios apóstolos, que deixaram tudo para segui-lo, até a conversão de São Paulo. Estas passagens bíblicas relatam como o coração destes homens e mulheres emudeceram e se abrandaram com as palavras e gestos de amor do Senhor. Além disso, os Atos dos Apóstolos, bem como, as Cartas do Novo Testamento nos dão indícios da preocupação paternal pelos recém-nascidos na fé cristã. Desta forma, em cada comunidade, os apóstolos iam deixando pessoas dignas e com autoridade para que os substituíssem como guias espirituais: “Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Jesus Cristo, criado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido” (1Tm 4,6).

Na Igreja primitiva, as cartas de São Inácio de Antioquia são provas de como viver o cristianismo com radicalidade a fim de chegar a ser uma cópia idêntica de Jesus Cristo. Contudo, a direção espiritual cresce e se solidifica na história da Igreja a partir do Monaquismo e dos Monges do Deserto, tais como, os Santos Pacômio, Dositeo, Sabas, Doroteu, João Clímaco, João Damasceno, etc. Na Idade Média, alguns exemplos singulares de direção espiritual se encontram nas cartas de Santa Catarina de Sena e em São Vicente Ferrer em seu Tratado Da Vida Espiritual. Mais tarde, no chamado século de ouro espiritual espanhol, Santa Teresa desenvolveu a doutrina e os critérios práticos da direção espiritual em algumas obras (Moradas, Vida, Caminho de perfeição); e o mesmo fez São João da Cruz (Subida ao Monte Carmelo, Chama viva de amor, Cântico Espiritual). Não menos importantes foram São João de Ávila, com a obra Audi Filia, e Santo Inácio de Loyola, com os seus Exercícios Espirituais.

No século XVII a prática da direção espiritual foi muito desenvolvida por autores como Alonso Rodríguez, Alvarez de Paz, São Francisco de Sales, Bossuet. Em nossos dias o Magistério da Igreja tem confirmado esta prática: “É preciso redescobrir a grande tradição do acompanhamento espiritual pessoal, que sempre deu tantos e tão preciosos frutos na vida da Igreja” (São João Paulo II. Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis, n. 40); “como nunca deixou de fazer, também hoje a Igreja segue recomendando a prática da direção espiritual, não só a quem deseja seguir o Senhor de perto, mas a todo cristão que quer viver com responsabilidade o próprio Batismo, quer dizer a vida nova em Cristo” (Papa Bento XVI. Discurso de 19/5/2011).

Pe. Enéas de Camargo Bête

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