27 de setembro de 2021

Jundiaí /SP

A diaconia de todos

“Quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10,44).

 

Caros leitores e leitoras: no dia 10 de agosto a Igreja comemora o padroeiro dos diáconos, São Lourenço, Diácono e Mártir. São Lourenço era espanhol e viveu no século III, em Roma, e foi um dos primeiros diáconos da Igreja. Diante da perseguição do Imperador Valeriano, o prefeito local da cidade de Roma exigiu de Lourenço que apresentasse os tesouros da Igreja. Para isso, o diácono pediu um prazo, que lhe foi concedido. Ele levou ao Imperador órfãos, cegos, coxos, viúvas, idosos, etc., enfim, todos os que a Igreja socorria e disse: “Eis aqui os nossos tesouros, que nunca diminuem e que podem ser encontrados em toda parte”. Perante a atitude do diácono, o prefeito sujeitou o santo a vários tormentos, até ser colocado em um braseiro ardente, sendo martirizado em 258, aos 33 anos.

Diácono, cuja instituição está em Atos dos Apóstolos 6,1-6, é o título dado ao terceiro grau do Sacramento da Ordem. Na Igreja, o clero é formado por três graus de sacramento da ordem sacerdotal: os bispos, presbíteros (ou sacerdotes) e diáconos. Os diáconos podem ser transitórios ou permanentes. O diácono transitório é quem recebe o grau diaconal apenas como uma etapa, para depois receber o Sacramento da Ordem no grau presbiteral, ou seja, para tornar-se padre. Já o diácono permanente é quem já é casado, não podendo progredir para o grau de presbítero, pois há a proibição do matrimônio para os padres. Assim sendo, os diáconos permanentes permanecem sempre como diáconos.

No clero local da Diocese de Jundiaí temos cinco diáconos transitórios, recém-ordenados no último dia 07 de agosto e 86 diáconos permanentes, sendo 15 eméritos, ou seja, que já completaram 75 anos de idade.

A palavra “diácono” surgiu a partir do grego diakonos, que significa “atendente” ou “servente”. De acordo com a doutrina, o diácono católico é o servo de Deus que tem como múnus (missão) essencial o cuidado com os necessitados de acordo com as necessidades da Igreja, como também o serviço à Palavra e da Liturgia (Eucaristia).

Contudo, apesar do diaconado ser um dom específico na Igreja, exercer a diaconia, como serviço, é um dever e uma missão de todos os batizados. A Igreja recebe sua identidade de Jesus Cristo, Profeta, Sacerdote, Pastor e Servidor. Por isso, se ele veio para servir, a missão da Igreja não pode ser outra. Está chamada a unir-se ao testemunho e ao serviço de seu Mestre. Para todo cristão, portanto, valem também as palavras de Jesus, que nos diz: “Quem quiser ser o primeiro no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10,44).

Em sua trilogia Jesus de Nazaré, o Papa Bento XVI, ali como o teólogo Joseph Ratzinger, escreve um belíssimo comentário do lava-pés (cf. Jo 13,1-11), traçando um paralelo entre esta cena, o hino cristológico de Fl 2,5-11, o chamado hino da kénosis (rebaixamento, aniquilamento) e Ap 7,14 que diz: “Estes são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas túnicas no sangue do Cordeiro”. De modo que o Papa conclui o seu pensamento, dizendo que a grande diaconia de Cristo foi a realização do seu Mistério Pascal (Paixão, Morte e Ressurreição): “Quando, no Apocalipse, aparece a formulação paradoxal segundo a qual os redimidos ‘lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro’ (7,14), isso quer dizer que é o amor de Jesus até o fim que nos purifica, que nos lava. O gesto do lava-pés exprime isto mesmo: é o amor serviçal de Jesus que nos arranca da nossa soberba e nos torna capazes de Deus, nos torna ‘puros’” (Jesus de Nazaré. Parte II: Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição [2011], p. 62).

A diaconia bíblica, desse modo, se distingue de qualquer ação pública ou humanitária, porque ela inclui a partilha da fé e o convite para uma vida nova: a vida plena que só Cristo pode oferecer, vida esta que abrange a reconciliação com Deus, com o próximo, consigo mesmo e com a criação. A diaconia é uma atitude, é o estilo de vida exigido para os discípulos de Jesus. Ser um seguidor de Jesus é seguir o seu exemplo, fazer o que ele fez, ir onde ele foi e cuidar daquilo que ele cuidou. Isso vai muito além de uma simples atividade ou um projeto qualquer.

A diaconia, portanto, é centrada em Cristo: na sua vida, exemplo, morte e ressurreição. Em Cristo, Deus mostra o seu grande amor pela humanidade e por toda a criação, tornando-se um de nós, esvaziando-se e assumindo a forma de servo (cf. Fl 2,6-8). A diaconia tem em Jesus o seu modelo mais perfeito e exemplo mais eloquente. Ele cuidou das pessoas, curou os enfermos, cuidou dos pobres, tocou nos impuros, libertou os oprimidos, abraçou os marginalizados e confrontou a injustiça. Após a sua ressurreição, ele apareceu aos discípulos e disse-lhes: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21). Assim, o exemplo que devemos tomar para o nosso estilo de vida deve ser igual ao de Jesus Cristo: vivermos uma vida de serviço a Deus e aos irmãos, principalmente os mais marginalizados e vulneráveis. A conversão implica não vivermos mais para nós mesmos, nem para satisfazermos as nossas próprias necessidades, mas vivermos para aquele que por nós morreu e ressuscitou.

Deixo aqui o meu agradecimento a todos os diáconos de nossa Diocese, por tudo aquilo que são e realizam na Igreja com abnegação, de modo especial, pelo cuidado aos pobres e aos enfermos. E que todos nós, clérigos e leigos, levemos com palavras e atos os gestos salvíficos da diaconia do próprio Cristo em favor de toda a humanidade.

São Lourenço, Diácono e Mártir, intercedei por todos nós, para que sejamos servidores segundo Jesus Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).

A todos abençoo.

Publicado no jornal A Federação em 06.08.2020.

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