24 de outubro de 2020

Jundiaí /SP

A celebração da Liturgia das Exéquias

O Concílio Vaticano II exprimiu a verdade sobre o sofrimento humano nestas palavras: “Na realidade, só no mistério do Verbo Encarnado encontra verdadeira luz o mistério do homem. Com efeito…, Cristo, que é o novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai o do Seu amor, também manifesta plenamente o homem ao homem e descobre-lhe a sublimidade da sua vocação. Se é verdade que estas palavras dizem respeito a tudo o que concerne o mistério do homem, então elas referem-se de modo particularíssimo, certamente, ao sofrimento humano.”
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Dando continuidade neste nosso espaço ao estudo dos documentosa conciliares, em particular sobre a Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, promulgada por São Paulo VI em 4 de dezembro de 1963, padre Gerson Schmidt nos remete hoje ao Capítulo III do documento – Os outros Sacramentos e os sacramentais – onde no número 81 fala sobre o rito das exéquias. E recorda, que “a Igreja, presente com seu ministro das exéquias, deve ir ao encontro do sofrimento das pessoas”, ilustrando com palavras de São João Paulo II da Carta Apostólica Salvifici Doloris sobre o sentido cristão do sofrimento humano. Padre Gerson:

“A celebração das Exéquias deve, segundo a reforma, “exprimir melhor a índole pascal da morte cristã” (SC, 81). A celebração das exéquias é uma liturgia. Na revisão dos ritos fúnebres, dever-se-á dar maior destaque a alegria da ressurreição de Cristo, razão da nossa fé, para não se cair num tom demasiadamente penitencial e derradeiro da morte, que atinge a todos e que por si só, já traz tristeza e angústia. Os padres conciliares também pedem que se adapte “mais o rito às condições e tradições das várias regiões, mesmo no que respeita à cor litúrgica e se faça a revisão do rito de sepultura das crianças enriquecendo-o de missa própria” (SC, 81-82). Ou seja, que na sepultura das crianças, haja um rito próprio para a Missa, pois o que estava em vigor remonta ao Século XV.

Há nas celebrações dos enterros por vezes um acento muito antropológico, acentuando-se os aspectos positivos do defunto, havendo um demasiado saudosismo e sentimentalismo exagerado, que pode trazer ambiguidades e descompassos pastorais. A nova concepção da liturgia das Exéquias necessita, a partir da mentalidade nova do Concilio, dar acento à dimensão cristocêntrica da fé pascal, que deve ter destaque na celebração, na pregação, nas orações fúnebres.

Cristo não parou na morte e, como Ele, também nós todos vamos ressuscitar. Por isso, os ministros das exéquias não devem acentuar tão somente o aspecto derradeiro e dramático da morte, trazendo mais tristeza aos fiéis enlutados, que choram o passamento de seu ente querido. Devem aproveitar essa hora em que as pessoas estão sensíveis e abertas para proclamar um querigma, um verdadeiro anúncio da fé, de um Deus amor que veio ao mundo para resgatar o homem do pecado e da morte.

Não cabe aqui muitas cobranças de participação ou de compromisso comunitário das pessoas presentes no velório, mas de um primeiro anúncio do Deus que ama a todos e que preparou um lugar na eternidade para todos. Não se poderia perder a oportunidade de “querigmatizar” sobre a vitória de Cristo sobre a morte e sobre todas as nossas mortes e desilusões na vida.

Nos funerais, proclame-se a morte não como o fim de tudo, mas, como na celebração da festa dos santos, como o “dies natalis”, dia do nascimento para a verdadeira vida, proclamando-se “o mistério pascal realizado neles que sofreram com Cristo e com ele são glorificados” (SC, 104).

A celebração das exéquias deixa de ser, assim, apenas uma intercessão pelo defunto ou oração pelos mortos, ou ainda entendida como um rito de alívio e consolo para os enlutados, mas uma oportunidade de catequese para o povo, uma verdadeira mistagogia que proclama a salvação de Cristo Ressuscitado dos mortos.

A Igreja, presente com seu ministro das exéquias, deve ir ao encontro do sofrimento das pessoas. Como proclamou o Papa João Paulo II: “A Igreja, que nasce do mistério da Redenção na Cruz de Cristo, tem o dever de procurar o encontro com o homem, de modo particular no caminho do seu sofrimento. É em tal encontro que o homem « se torna o caminho da Igreja »; e este é um dos caminhos mais importantes”[1].

Por isso, os funerais cristãos não conferem ao defunto um sacramento, nem um sacramental, como aponta o Catecismo da Igreja, mas não deixam de ser uma autêntica celebração litúrgica da Igreja.

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[1] JOÃO PAULO II, CARTA APOSTÓLICA SALVIFICI DOLORIS SOBRE O SENTIDO CRISTÃO DO SOFRIMENTO HUMANO, n. 03.

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