11 de abril de 2021

Jundiaí /SP

Papa Francisco visita o Iraque

No Iraque, em sua 33ª viagem apostólica e primeira viagem ao exterior desde o início da pandemia, o Papa falou em esperança e convivência harmônica entre os povos.

O logotipo da viagem mostra o Papa no gesto de saudação ao país, representado no mapa e por seus símbolos, a palmeira e os rios Tigre e Eufrates. Uma pomba branca, em seu bico um ramo de oliveira, símbolo de paz, voando sobre as bandeiras da Santa Sé e da República do Iraque. Acima da imagem está o lema da visita em árabe, curdo e caldeu.

Pela primeira vez na história, um chefe de Estado do Vaticano visitou o Iraque, a antiga Mesopotâmia, terra onde viveu Abraão e conhecida por ser o “berço das civilizações”. O Papa Francisco visitou o país entre os dias 5 e 8 de março, sob o lema: “Sois todos irmãos”, extraído do Evangelho de Mateus, enfatizando a necessidade de paz, independentemente da crença religiosa. Uma viagem antes sonhada e desejada por São João Paulo II, que foi proibido de visitar o país no ano 2000, devido à guerra e às dificuldades em firmar um acordo com Saddam Hussein, então presidente e primeiro-ministro do Iraque (16 de julho de 1979 a 9 de abril de 2003).

Como pastor, como pai e como aquele que vai ao encontro de quem está em dificuldade, o Papa Francisco, conhecido por construir relacionamentos sólidos com líderes muçulmanos, insistiu em realizar a viagem mesmo em tempos tão desfavoráveis (devido à pandemia, só para citar um motivo) porque em seu coração estava o desejo de mostrar à minoria cristã e tão sofrida, presente no Iraque, que ela não está sozinha. Num gesto poderoso e simbólico, sua missão foi de paz e compaixão.

O Mundo parou e acompanhou a viagem do Papa Francisco ao Iraque

O contexto geopolítico do Oriente Médio, sua localização e história, a atual pandemia da Covid-19 e por se tratar da primeira vez que um Papa pisou em solo iraquiano contribuíram para fazer da visita do Papa Francisco ao Iraque um fato histórico. Em consequência desses fatores, e não podia ser diferente, o evento foi destaque na imprensa mundial, em suas diversas expressões – foi o assunto de destaque no período da história recente. Para além dos jornais impressos, boletins televisivos e radiofônicos, as mídias sociais, utilizando de toda a sua capacidade tecnológica, registraram e transmitiram os acontecimentos  da passagem de Francisco pelas  terras de Abraão minuto a minuto.  Acompanharam o Papa 74 jornalistas de 15 países, sendo que 14 deles pela primeira vez.

A peregrinação do Papa foi destaque no Brasil, na Bósnia-Herzegovina, nos Estados Unidos da América, no Japão, em Portugal, Espanha, só para citar alguns exemplos. Os principais jornais espalhados pelos cinco continentes noticiaram o evento: o diário britânico The Independent estampou na primeira página, em 6 de março, “O Papa Francisco inicia uma histórica visita ao Iraque”. Por sua vez, o jornal nicaraguense La Prensa exibiu: “Francisco em histórica visita ao Iraque”. Do outro lado do mundo, o Khaleej Times, dos Emirados Árabes Unidos, ou o Arab News, da Arábia Saudita, também destacaram a visita. Na França, o principal jornal do país, Le Monde, completou: “O Papa Francisco no Iraque, uma viagem histórica e muito política”. As próprias palavras do Papa contribuíram para registrar e descrever a importância do momento histórico: “Tornem-se artesãos da paz”, apresentou o jornal italiano La Stampa, enquanto o alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung registrou: “O Papa em Bagdad: Chega de violência”.

Por tudo isso e em reconhecimento por sua coragem e verdadeira missão de Pastor da Igreja, o Papa recebeu o diploma que marca a entrega do Prêmio Nacional Italiano de Jornalismo “Maria Grazia Cutuli” 2021. No certificado, Francisco é definido como um “Enviado Especial” que, “gastando os sapatos, percorre as ruas do mundo em nome da Fé, da Fraternidade e da Paz”.  A premiação ocorreu a bordo do avião que levou Francisco ao Iraque.

Ao longo desses três dias, o Papa percorreu 1.445 quilômetros em território iraquiano. Por onde passou, as estradas foram pavimentadas, postos de segurança foram instalados e as obras de renovação foram realizadas em locais que até agora nunca tinham estado nos programas oficiais de visita. Em várias localidades, bandeiras do Vaticano foram hasteadas próximas aos muros de arame farpado.

O passo a passo do encontro com os iraquianos

 O Papa Francisco chegou a capital Bagdá, em 5 de março. Entre outras atividades protocolares, no palácio presidencial, ele foi recebido pelo presidente do Iraque, Barham Ahmed Salih Qassim.  Em seu primeiro discurso, Francisco aproximou-se dos que professam outras confissões religiosas, incentivando a amizade entre as comunidades religiosas, quais foram as suas palavras: “Venho como penitente que pede perdão ao Céu e aos irmãos por tanta destruição e crueldade. Venho como peregrino de paz, em nome de Cristo, Príncipe da Paz. Quanto rezamos ao longo destes anos pela paz no Iraque!”.

Neste dia também foi destaque o encontro com os bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, seminaristas e catequistas na Catedral Sírio-Católica de “Nossa Senhora da Salvação”, para quem o Papa ensinou, com seus gestos, a ser ‘Igreja em saída’. Dirigindo-se aos clérigos e fiéis leigos, o Pontífice disse: “É fácil ser contagiado pelo vírus do desânimo que às vezes parece difundir-se ao nosso redor, mas o Senhor deu-nos uma vacina eficaz contra este vírus mau: é a esperança”, completou.

No segundo dia da visita, em 6 de março, o Papa viajou para Najaf, ‘cidade santa’ do islamismo xiita mundial, onde encontrou-se com o Grão-Aiatolá Sayyd Ali Al-Husaymi Al-Sistani, de 90 anos. Em sinal de respeito às normas islâmicas, o Papa tirou os sapatos antes de entrar no quarto do líder xiita. O encontro, que durou cerca de 55 minutos e não foi gravado, foi visto como um importante passo na aproximação entre o cristianismo e o islamismo.  Os xiitas representam 60% da população iraquiana.

A visita não foi filmada, por isso, um comunicado do Vaticano depois da reunião informou que o Papa agradeceu ao Aiatolá e à comunidade xiita por sua defesa dos mais fracos e perseguidos em meio à violência e às grandes dificuldades dos últimos anos, reafirmando o caráter sagrado da vida humana e a unidade do povo iraquiano. O Aiatolá, por sua vez, respondeu ao Papa que os cristãos devem “viver em paz e segurança” e se beneficiar de “todos os direitos constitucionais”.

Depois desse encontro, o Papa viajou para Nassiriya, na Planície de Ur, região desértica no sul da Mesopotâmia, entre as bacias dos rios Tigre e Eufrates. Nesta região, onde ficava a antiga cidade de Ur, criada há cerca de 3.800 anos e considerada o local de nascimento do profeta Abraão, Francisco participou de uma cerimônia ecumênica, com diversos cristãos de diversas denominações, muçulmanos xiitas e sunitas, judeus, yazidis, zoroastristas, entre outros. Neste local, o chefe da Igreja católica disse que o “terrorismo abusa da religião” e apelou à paz e à unidade no Oriente Médio, lamentando a saída de cristãos da região, obrigados a procurar refúgio em outros países. No encontro, chamado de extraordinário e inimaginável, os cristãos deram graças a Deus em diferentes línguas.

De volta a Bagdá, na tarde deste mesmo dia, o Pontífice presidiu a Santa Missa na Catedral caldeia de “São José”.  (Foto)

Dentro da programação do penúltimo dia de visitas, dia 7 de março, o Papa se encontrou com autoridades civis e religiosas, na região montanhosa e autônoma do Curdistão Iraquiano.

Em Mossul, ao norte do país, na praça de Hosh al-Bieaa, Francisco rezou por intenção das vítimas da Guerra. Em um pequeno palco com uma cruz de madeira simples e uma poltrona branca, o Pontífice fez uma prece pelo amor, o respeito e a aceitação do próximo. “Se Deus é o Deus da vida, e Ele o é, para nós não é permitido matar os nossos irmãos em seu nome. Se Deus é o Deus da paz, e Ele o é, não nos é lícito fazer guerra em seu nome. Se Deus é o Deus do amor, e Ele o é, não nos é permitido odiar os irmãos”. Ao redor, o cenário era de buracos de bala, paredes destruídas por morteiros e escombros que lembravam os horrores da guerra. Antes da invasão do Estado Islâmico (em 2014), essa parte da cidade abrigava igrejas centenárias e ruas em que, por séculos, muçulmanos conviveram com cristãos e judeus.

Também neste local, o Papa ouviu alguns testemunhos das atrocidades cometidas durante a invasão do Estado Islâmico, que causou o êxodo de cerca de 500.000 pessoas, 120.000 delas cristãs.

Em Qaraqosh, onde a maioria dos habitantes é composta por cristãos, o Papa ouviu testemunhos de fé e o pedido de perdão aos assassinos que mataram seus filhos, suas esposas. Na igreja da “Imaculada Conceição” ele rezou a Oração do Ângelus.

Em Erbil, capital da região autônoma do Curdistão Iraquiano, no Estádio “Franso Hariri”, no último compromisso, o Papa presidiu a Santa Missa para mais de 10 mil cristãos de todas as partes do país. Eles rezaram com Francisco, com esperança.

Devido à pandemia de covid-19, o chefe da Igreja católica não teve encontros com multidões, algo comum em suas viagens ao exterior. A Missa em Erbil foi a única exceção.

Durante a visita a essas localidades, vítimas do terror dos extremistas do grupo Estado Islâmico, o Papa encorajou e confirmou sua fé na comunidade cristã; uma luz do bem e da redenção que Francisco levou a um lugar devastado pela guerra, pela violência e pela perseguição.

De volta a capital Bagdá, na manhã da segunda-feira, 8 de março, o Papa participou da cerimônia de despedida no Aeroporto de Bagdá, retornando a Roma.

Dois dias depois, na Audiência Geral do dia 10 de março, Francisco comentou: “Experimentei o forte sentido penitencial desta peregrinação: não podia aproximar-me daquele povo martirizado, daquela Igreja mártir, sem carregar, em nome da Igreja católica, a cruz que eles carregam há anos; uma grande cruz, como aquela colocada na entrada de Qaraqosh” e disse também que sentiu isso quando viu as feridas ainda abertas da destruição, e ainda mais quando conheceu e ouviu “as testemunhas que sobreviveram à violência, à perseguição e ao exílio”.

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