Vocação e Discernimento

“Mostra-me, Senhor, os teus caminhos” (Sl 25,4).

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

No Brasil, o mês de agosto é dedicado às vocações. Assumido em âmbito nacional, em 1981, pela Igreja do Brasil, este evento tem como objetivo ser um tempo especial de reflexão e oração pelas vocações e ministérios. No primeiro domingo do mês, celebra-se a vocação para o ministério ordenado: diáconos, padres e bispos; no segundo, a vocação para a vida e a família (uma atenção especial aos pais, por ser o Dia dos Pais); no terceiro, a vocação para a vida consagrada: religiosos e consagrados seculares e, por fim, no quarto, a vocação para os ministérios e serviços na comunidade, com destaque aos catequistas.

Não há dúvida de que toda vocação é uma resposta à iniciativa de Deus que nos oferece o seu projeto de amor, para que possamos realizar com alegria a nossa missão na Igreja e no mundo. O Senhor Jesus nos diz: “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi e vos designei, para irdes e produzirdes fruto, e para que o vosso fruto permaneça” (Jo 15,16). Portanto, se vocação é sempre iniciativa de Deus, de pouco serve se faltar a resposta generosa e total de quem é chamado, embora Deus nunca desista de bater à porta do nosso coração.

Este ano, em específico, a inspiração principal do mês vocacional está em sintonia com o 4º Congresso Vocacional do Brasil, que tem como tema: “Vocação e Discernimento”, e lema: “Mostra-me, Senhor, os teus caminhos”(Sl 25,4). Este Congresso será realizado de 05 a 08 de setembro deste ano, no Centro de Eventos do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP). Por sua vez, este tema segue muito de perto a reflexão feita pela 15ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (Roma, 03 a 28 de outubro de 2018), e que teve como tema: “Juventude, Fé e Discernimento Vocacional”.

Nos últimos tempos, na reflexão da Igreja, o tema do discernimento torna-se cada vez mais central e fundamental na questão vocacional. Vocação e Discernimento: trata-se de dois polos muito importantes e interligados no caminho da realização humana. Por isso, os vocacionados são convidados a se colocarem diante do Senhor e suplicar, com fé e confiança: “mostra-me, Senhor, os teus caminhos” (Sl 25,4).

No Texto-Base preparado para auxiliar o aprofundamento do tema do 4º Congresso Vocacional do Brasil são indicadas pistas muito importantes e concretas para um caminho de discernimento vocacional. O processo do discernimento é descrito nestes termos: “O discernimento se dá a partir da escuta, da oração e de uma experiência concreta de fé” (n. 103). Somente a partir de um encontro pessoal e íntimo com Jesus Cristo, só então, acontece o discernimento vocacional em vista de um projeto pessoal de vida. É preciso que cada vocacionado olhe com fé e atenção para a própria história à luz da fé e descubra os sinais de Deus que o ama e o chama, para que tome sua decisão com maior responsabilidade. Este acurado discernimento vocacional permite que o vocacionado supere muitos desafios que ameaçam ofuscar e atrapalhar a opção vocacional. A degradação familiar abala enormemente a dimensão afetiva e emocional dos vocacionados, como também a invasão dos grandes meios de comunicação, das redes sociais em geral, que dão ênfase à banalidade, ao consumismo, à vulgarização da sexualidade e à ridicularizarão de muitos valores e instituições, como a família, a escola e a religião.

O Texto-Base sugere também vários meios eficazes para assegurar um adequado discernimento vocacional, como por exemplo: a importância da direção espiritual e do aconselhamento vocacional com pessoas capacitadas; a construção de um Projeto Pessoal de Vida capaz de realizar todas as várias dimensões da vida, bem como de assegurar uma vocação “em saída”, que vá ao encontro das pessoas mais indefesas e necessitadas; uma bem estruturada Pastoral Vocacional e Serviço à Animação Vocacional (PV-SAV), presente em todas as paróquias da Diocese, envolvendo todas as forças vivas da comunidade de fé, para que o cuidado das vocações seja um compromisso eclesial permanente.

Evidentemente este trabalho vocacional e seu reto discernimento devem priorizar nossos adolescentes e jovens que ainda não definiram sua opção vocacional. Na última Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus vivit (“Cristo Vive”), dirigida para os jovens e para todo o povo de Deus, o Papa Francisco dedica todo o último capítulo a este tema. O discernimento “é o esforço por reconhecer a própria vocação. É uma tarefa que requer espaços de solidão e silêncio, porque se trata duma decisão muito pessoal que mais ninguém pode tomar no nosso lugar” (n. 283), de modo que se possa escutar e atender o chamado do Amigo, Jesus Cristo. O discernimento vocacional exige muita audácia e coragem, bem como docilidade e abertura ao Espírito Santo. No documento citado, o Papa conclui: “em última análise, um bom discernimento é um caminho de liberdade que faz aflorar a realidade única de cada pessoa, aquilo que é tão seu, tão pessoal, que só Deus sabe. Os outros não podem entender plenamente, nem prever de fora como se desenvolverá” (n. 296). É por isso que o Setor Diocesano da Juventude e os nossos grupos juvenis devem priorizar esta dimensão vocacional e seu discernimento nos seus trabalhos com os jovens.

Por fim, aproveito a oportunidade para reforçar a lembrança referente às decisões assumidas quanto ao Projeto Vocacional, lançado recentemente na Diocese: “Cada Comunidade uma Nova Vocação”, o qual tem como objetivo a oração pelas vocações e a divulgação nos meios de comunicação social de testemunhos vocacionais de quem vive com alegria a sua vocação. O Projeto sugere que rezemos no início de todos os encontros e reuniões da Igreja, bem como antes de todas as celebrações o Santo Terço, ou, pelo menos, uma dezena. Isto nem sempre está acontecendo, como também nem todas as paróquias da Diocese conhecem o dia de cada mês quando devem rezar pelas vocações. Encarecidamente peço um maior empenho de todos neste sentido.

Que Maria de Nazaré, que se colocou numa atitude de disponibilidade total para poder responder ao projeto de Deus, interceda por todos nós, a fim de que possamos também dizer, como ela: “Eis-nos aqui, envia-nos” (cf. Is 6,8).

E a todos abençoo.

Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

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