Mês da Bíblia – Primeira Carta de São João

TEMA: O amor em defesa da vida
LEMA: “Nós amamos porque Deus primeiro nos amou” (1Jo 4,19)

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

No mês de setembro a Igreja no Brasil convida-nos para olhar com mais carinho para a Bíblia, a Palavra de Deus, pois desde o ano de 1971, este mês tornou-se o “mês da Bíblia”. Neste ano de 2019, em sintonia com a Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é proposta para o nosso estudo e oração, a Primeira Carta de São João, com o tema: “O amor em defesa da vida”, e o lema: “Nós amamos porque Deus primeiro nos amou” (1Jo 4,19).

É importante ressaltar também que o tema do mês da Bíblia deste ano segue a proposta pastoral do Documento de Aparecida (2007) para os anos 2012 a 2019: “Ser discípulos missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”. De fato, nos anos de 2012 a 2015, foi aprofundada a primeira parte desta proposta: “ser discípulos missionários de Jesus Cristo”. Agora, nos anos de 2016 a 2019, vem sendo aprofundada a segunda parte da proposta da Conferência de Aparecida: “para que nele nossos povos tenham vida”. Eis então o esquema da escolha do tema e do escrito bíblico para as últimas quatro celebrações do mês da Bíblia: 2016: “a profecia em defesa da vida” − o profeta Miqueias; 2017: “a comunidade em defesa da vida” – Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses; 2018: “a sabedoria em defesa da vida” − o livro da Sabedoria; 2019: “o amor em defesa da vida” – a Primeira Carta de São João.

Não se deve esquecer o motivo principal por que o mês da Bíblia é celebrado no mês de setembro: no dia 30 deste mês é celebrada a memória de São Jerônimo, que no fim do quarto século recebeu a incumbência do Papa Dâmaso (305-384 d.C.) de presentear o cristianismo com uma versão da Bíblia em latim, que seria chamada, mais tarde, de Vulgata.

A Primeira Carta de João é bem diferente das cartas de São Paulo e das demais cartas do Novo Testamento. Não existe nela uma indicação de data, nem um cabeçalho com os nomes dos remetentes, não menciona os destinatários, nem manda saudações ou lembranças. Por isso é mais difícil conhecer a sua origem e seu local de redação. A opinião mais provável é de que esta Carta de São João reúne vários trechos de uma homilia escrita sobre a comunhão com Deus e com os irmãos. Como a linguagem é muito semelhante ao Evangelho de João e as outras duas Cartas de São João, é provável que a origem deste escrito tenha sido a comunidade de Éfeso, na Ásia Menor (atual Turquia), onde uma tradição secular coloca a residência do apóstolo João, embora existam sinais muito evidentes de que contexto do Quarto Evangelho seja bem diferente daquele das três Cartas de São João. O Evangelho de João surge de uma comunidade cristã que estava se firmando e que enfrentava forte oposição vinda de fora, de modo especial, da parte do judaísmo. Já as Cartas de João, provavelmente escritas pela mesma pessoa, no fim do século I ou começo do século II, mostram um ambiente eclesial bem diferente: a comunidade cristã enfrenta agora graves conflitos internos, que ameaçam até a sua permanência. O ambiente da comunidade tinha se transformado por completo.

Pelo conteúdo da Primeira Carta, percebe-se que havia na comunidade uma grave crise de fé provocada por alguns de seus membros. Surgiu na comunidade uma grande insegurança quanto à maneira de entender e de viver a comunhão com Deus e com Jesus, chegando-se a renegar Jesus como o Messias encarnado, sua vida terrestre, morte, ressurreição e a promessa de sua volta gloriosa. Isto fez com que alguns membros da comunidade não dessem mais a devida importância à prática concreta da fé no dia a dia da vida, ao amor fraterno e solidário; diziam que a comunhão consiste apenas no conhecimento intelectual (em grego: “gnôsis”). Para estes falsos mestres e profetas, a salvação viria por uma instrução ou iluminação superior. Esquecendo a prática do amor e da justiça, viviam em busca das últimas novidades ou revelações espirituais. Deste modo, os gnósticos estavam criando uma divisão dentro da comunidade, separando-se dos demais cristãos (cf. 1Jo 2,19).

A maioria da comunidade, porém, achava que não bastava só o conhecimento intelectual e abstrato. A verdadeira comunhão com Deus e com Jesus exige gestos concretos de vivência e de partilha. Ao contrário dos falsos cristãos, a comunidade defendia que o verdadeiro conhecimento de Jesus Cristo consiste em andar na luz de Deus, isto é: praticar a Palavra de Deus e amar os irmãos de maneira concreta, com gestos e ações de partilha (1Jo 3,17-18). Como se percebe, o gnosticismo, esta interpretação errada do Evangelho de Jesus Cristo, continua sendo ainda um problema bem atual. 

Proponho três chaves para abrir o extraordinário tesouro da Primeira Carta de São João:

  1. Jesus. O modelo da vida cristã é Jesus Cristo. Já na abertura da Carta, o autor deixa bem claro que o Cristo da fé não pode ser fruto de uma especulação intelectual, mas deve ser Jesus de Nazaré, pessoa histórica, bem concreta, aquele que “ouvimos, contemplamos, e que nossas mãos apalparam” (cf. 1Jo 1,1). Um Jesus feito carne, que se tornou Cristo através do sacrifício de sua morte na cruz e de sua ressurreição (cf. 1Jo 1,7; 4,10).

 

  1. Amor. A frequência com que a palavra “amor” e seus derivados ocorrem na Carta (mais de 40 vezes) faz perceber o eixo central da mensagem que João quer comunicar. “Deus é amor” (1Jo 4,8.16) e manifesta seu amor enviando seu Filho único ao mundo (cf. 1Jo 4,9-10). A nossa resposta ao amor de Deus é o amor concreto aos nossos irmãos (cf. 1Jo 4,11). Pois quem ama seu irmão permanece na luz (cf. 1Jo 2,10), mas quem não ama seu irmão não é de Deus (cf. 1Jo 3,10). E o amor não deve ser vazio e só de palavras (cf. 1Jo 3,18).

 

  1. Comunidade. A pertença à comunidade se faz através da prática do amor. Ela é formada por aqueles que são filhos e filhas de Deus (cf. 1Jo 3,2), gerados por Deus no Batismo (cf. 1Jo 5,18), que nos faz passar da morte para a vida (cf. 1Jo 3,14). A Carta chama os fiéis de “filhinhos” (1Jo 2,12.14), e da comunidade são destacados “os pais” (cf. 1Jo 2,13-14) e “os jovens” (1Jo 2,13-14). Mas existem também os perturbadores, os “anticristos” (cf. 1Jo 2,18; 4,1-5) os filhos do Maligno, os que seguem dividindo a comunidade. A comunidade precisa permanecer unida no amor de Cristo e no amor fraterno.

A Primeira Carta de São João é um lindo texto para ser lido, apreciado e meditado muitas vezes. É preciso acreditar que Jesus, a Palavra da Vida, o Filho de Deus Encarnado, continua inspirando-nos, neste mundo cada vez mais marcado pelo individualismo e pela indiferença, a novas práticas de amor solidário ao próximo. Assim seja!

E a todos abençoo.

Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

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