Dons do Espírito Santo (VI): Piedade

“O Senhor, nosso Deus, como é grande o vosso nome por toda a terra” (Sl 8,2), canta o Salmista extasiado pela grandeza do poder e da misericórdia de Deus. É o dom da Piedade, o sexto dentre os Sete Dons do Espírito Santo, que nos permite rejubilar diante da onipotência do Criador, e é sobre ele que refletiremos.

O mundo em que vivemos é marcado por um racionalismo materialista, que distancia o ser humano cada vez mais de Deus e do Seu poder salvador. Neste contexto extremamente desafiador para aqueles que desejam viver com radicalidade a fé em nosso Senhor Jesus Cristo o dom da Piedade é o laço espiritual que nos prende a Deus, pois reconhecemos que “sem Ele nada podemos fazer” (Jo 15,5). A Piedade nos faz amar a Deus profundamente e nos leva a viver de acordo com esta íntima união, que, a partir do coração lança raízes para todas as áreas da nossa vida sobre a terra, de modo que livre e amorosamente pautamos a nossa existência numa vida de oração fervorosa, de cumprimento abrasado da vontade de Deus, de uma busca apaixonada pela proximidade com o Senhor através da vida sacramental.

A Piedade, o dom dos corações enamorados, faz nascer em nós a devoção, que é a rainha das virtudes, pois estimula em nós a vida interior e nos ajuda a crescer na intimidade com Deus. São Francisco de Sales, Doutor da Igreja, afirma que a “devoção é o mais perfeito amor a Deus” (Filoteia, I). Ora, a devoção consiste em realizar atos humanos com a intenção de pertencer mais perfeitamente ao único Senhor e Salvador de nossas vidas, Jesus Cristo. Se rezamos o Terço ou o Rosário, se meditamos a Via Sacra ou outra devoção particular, se adoramos devotamente o Santíssimo Sacramento, é porque desejamos, no mais íntimo do nosso coração, que a nossa alma se una a Deus, como a esposa do Cântico dos Cânticos fala da união com o amado: “eu pertenço ao meu amado e ele é todo meu” (Ct 2,16).

É igualmente correto e justo que a Piedade se manifeste de forma ordenada a aumentar a santidade de cada cristão, na vocação específica à qual foi chamado por Deus. Novamente, diz o santo Bispo Francisco de Sales: “a prática da devoção tem que atender às nossas ocupações e deveres particulares. Seria louvável que um bispo vivesse tão solitário como um monge cartuxo? (…) Ou que um operário frequentasse tanto a Igreja quanto um religioso frequenta o coro para salmodiar”? Deste modo, podemos compreender que no lugar da nossa ocupação diária podemos viver com o pensamento devotamente voltado para Deus e cumprir o nosso dever na presença do Senhor, exultando pelas Suas grandes maravilhas. Portanto, que vivam os fiéis leigos a sua vocação de ser sinais de Cristo onde quer que estejam; vivam os sacerdotes a celebrar digna e alegremente os Santos Mistérios, e toda a Igreja, enfim, cumprindo a sua missão de ser sal e luz no mundo (Mt 5, 13-14).

Que a Santíssima Virgem nos ajude perseverar, com devota piedade, nos caminhos do Senhor, para que cheguemos todos à alegria do Banquete das núpcias do Cordeiro que tira o pecado do mundo.

Seminarista Jean Carlo Cambuim

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