A oração do pobre chega às nuvens

Seguem os principais trechos da homilia do Papa Francisco na missa de encerramento do Sínodo para a Região Pan-amazônica, celebrada pelo Pontífice em 27 de outubro, na Basílica de São Pedro.

“Hoje, a Palavra de Deus ajuda-nos a rezar por meio de três personagens: na parábola de Jesus, rezam o fariseu e o publicano; na primeira Leitura, fala-se da oração do pobre.

  1. A oração do fariseu principia assim: “Ó Deus, dou-Te graças”. É um ótimo começo, porque a melhor oração é a de gratidão, é a de louvor. Mas olhemos o motivo – referido logo a seguir –, pelo qual dá graças: “por não ser como o resto dos homens” (Lc 18,11). E dá também a explicação do motivo: vangloria-se porque cumpre do melhor modo possível preceitos particulares. Mas esquece o maior: amar a Deus e ao próximo (cf. Mt 22, 36-40). Transbordando de confiança própria, da sua capacidade de observar os mandamentos, dos seus méritos e virtudes, o fariseu aparece centrado apenas em si mesmo. O drama deste homem é que vive sem amor. Está no templo de Deus, mas pratica outra religião, a religião do eu.

E além de Deus, esquece o próximo; antes, despreza-o… Considera-se melhor do que os outros, que designa, literalmente, por “o resto, os restantes (loipoi)” (Lc 18, 11). Quantas vezes vemos acontecer esta dinâmica na vida e na história! Quantas vezes quem está à frente, levanta muros para aumentar as distâncias, tornando os outros ainda mais descartados. Ou então, considerando-os atrasados e de pouco valor, despreza as suas tradições, apaga as suas gestas, ocupa os seus territórios e usurpa os seus bens. Vimo-lo no Sínodo, quando falávamos da exploração da criação, da população, dos habitantes da Amazônia, da exploração das pessoas, do tráfico das pessoas! Os erros do passado não foram suficientes para deixarmos de saquear os outros e causar ferimentos aos nossos irmãos e à nossa irmã terra. A “religião do eu” continua, hipócrita com os seus ritos e as suas “orações”: muitos se esqueceram do verdadeiro culto a Deus, que passa sempre pelo amor ao próximo.

  1. Passemos à outra oração: A oração do publicano. Aquele começa, não pelos méritos, mas pelas suas faltas; não pela riqueza, mas pela sua pobreza: Aquele homem que explora os outros se reconhece pobre diante de Deus, e o Senhor ouve a sua oração.
  2. Assim chegamos à oração do pobre, da primeira Leitura. Esta – diz Ben Sirá – “chegará às nuvens” (35, 17). Enquanto a oração de quem se considera justo fica em terra, esmagada pela força de gravidade do egoísmo, a do pobre sobe, direita, até Deus.

Neste Sínodo, tivemos a graça de escutar as vozes dos pobres e refletir sobre a precariedade das suas vidas, ameaçadas por modelos de progresso predatórios. E, no entanto, precisamente nesta situação, muitos nos testemunharam que é possível olhar a realidade de modo diferente, acolhendo-a de mãos abertas como uma dádiva, habitando na criação, não como meio a ser explorado, mas como casa a ser guardada, confiando em Deus. Rezemos pedindo a graça de saber escutar o clamor dos pobres: é o clamor de esperança da Igreja. Assumindo nós o seu clamor, também a nossa oração – temos a certeza – atravessará as nuvens.

Papa Francisco

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