A linguagem do amor é a linguagem do tu

Publicamos, a seguir, os principais trechos da homilia do Santo Padre na Missa no Dia Mundial dos Pobres, liturgia do 33º Domingo do Tempo Comum, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, em 17 de novembro.

Hoje, no Evangelho, Jesus deixa os seus contemporâneos, e nós também, surpreendidos; precisamente no momento em que alguém elogiava a magnificência do templo de Jerusalém, diz Ele que não ficará “pedra sobre pedra” (Lc 21, 6). Por que profere tais palavras sobre instituição tão sagrada, que não era apenas um edifício, mas um sinal religioso único, uma casa para Deus e para o povo crente?

Procuremos respostas nas palavras de Jesus. Hoje diz-nos Ele que quase tudo passará: quase tudo, mas não tudo. Neste penúltimo domingo do Tempo Comum, explica que, a desmoronar-se, a passar são as coisas penúltimas, não as últimas: o templo, não Deus; os reinos e as vicissitudes da humanidade, não o homem. Passam as coisas penúltimas, que muitas vezes parecem definitivas, mas não são. Então, para nos ajudar a compreender aquilo que conta na vida, Jesus acautela-nos de duas tentações.

A primeira é a tentação da pressa, do imediatamente. Para Jesus, não é preciso ir atrás daqueles que dizem que o fim chega imediatamente, que “o tempo está próximo” (21, 8). Esta pressa, este tudo e imediatamente não vem de Deus. Com a mania de correr, de dominar tudo e imediatamente, incomoda-nos quem fica para trás; e consideramo-lo descartável. Quantos idosos, nascituros, pessoas com deficiência, pobres… considerados inúteis! Vamos com pressa, sem nos preocuparmos que aumentem os desníveis, que a ganância de poucos aumente a pobreza de muitos.

Como antídoto à pressa, Jesus propõe-nos hoje a cada um a perseverança: “pela vossa constância é que sereis salvos” (21, 19). A perseverança é avançar dia a dia com os olhos fixos naquilo que não passa: o Senhor e o próximo.

Há um segundo engano de que nos quer desviar Jesus, quando afirma: “Muitos virão em meu nome, dizendo ‘sou eu’. (…) Não os sigais” (21, 8). É a tentação do eu. Não é suficiente ter o rótulo de “cristão” ou de “católico” para ser de Jesus. É preciso falar a mesma linguagem de Jesus: a linguagem do amor, a linguagem do tu. Não fala a linguagem de Jesus quem diz eu, mas quem sai do próprio eu. Então ponhamo-nos a questão: Eu ajudo alguém, de quem nada poderei receber? Eu, cristão, tenho ao menos um pobre por amigo?

Os pobres são preciosos aos olhos de Deus, porque não falam a linguagem do eu: não se aguentam sozinhos, com as próprias forças, precisam de quem os tome pela mão. Como seria bom se os pobres ocupassem no nosso coração o lugar que têm no coração de Deus!

Os pobres facilitam-nos o acesso ao Céu: é por isso que o sentido da fé do povo de Deus os viu como os porteiros do Céu. Já desde agora, são o nosso tesouro, o tesouro da Igreja. Com efeito, desvendam-nos a riqueza que jamais envelhece, a riqueza que une terra e Céu e para a qual verdadeiramente vale a pena viver: o amor.

Papa Francisco

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