A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica

“Então Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1,31).

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Nos dias 6 a 27 de outubro deste ano realizou-se, no Vaticano, a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, evento este conhecido como o Sínodo para a Amazônia. O tema escolhido deste Sínodo foi: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

O Sínodo é uma instituição permanente da Igreja Católica, criada por São Paulo VI, em resposta aos desejos dos bispos participantes do Concílio Vaticano II (1962-1965), com a intenção de manter vivo o espírito de colegialidade nascido naquela experiência conciliar extraordinária.

O sentido etimológico da palavra “sínodo” resulta de dois termos gregos “syn” (que significa “juntos”) e “hodos” (que significa “caminho”), numa junção que expressa a ideia de “caminhar juntos”. Portanto, trata-se de um encontro de alguns bispos, que reunidos com o Papa, isto é, “com Pedro e sob Pedro”, têm a oportunidade de trocarem informações e compartilhar experiências, com o objetivo de buscar soluções pastorais que tenham aplicação para toda a Igreja. Os seus participantes têm a plena consciência da necessidade da graça de Deus e da ação do Espírito Santo, o verdadeiro protagonista deste evento. É preciso “caminhar juntos”, sempre atentos àquilo que o Espírito “diz à sua Igreja” (cf. Ap 2.11), de acordo com os novos tempos da história do mundo e da Igreja.

Mas por que um Sínodo para a Amazônia? Essa região abrange 7,8 milhões de quilômetros quadrados, onde vivem mais de 33 milhões de pessoas e mais de 370 povos indígenas. Em termos geográficos, a Pan-Amazônia engloba 40% da área das florestas tropicais e aproximadamente 30% da superfície da terra, abrigando cerca de 15% da biodiversidade terrestre. É uma das biosferas mais ricas e complexas do planeta. Profeticamente, desde 1954 os Bispos da Amazônia têm se reunido periodicamente para tratar de assuntos pertinentes àquela região. Mas foi o Documento de Santarém, produzido pelos Bispos durante o seu encontro realizado em 1972, sob a inspiração das palavras do Papa Paulo VI, com a célebre frase, nos anos de 1970: “Cristo aponta para a Amazônia”, que trouxe à tona a necessidade de “uma Igreja com rosto amazônico”. E assim, na conclusão da Oração do Ângelus, o Papa Francisco surpreendeu a todos, afirmando: “Acolhendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como a voz de diversos Pastores e fiéis de outras partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica, que terá lugar em Roma no mês de outubro de 2019. Finalidade principal desta convocação é encontrar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, sobretudo dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta Amazônica, pulmão de importância fundamental para o nosso planeta” (15.10.2017). Esta convocação do Sínodo para a Amazônia foi depois confirmada no famoso encontro que o Papa Francisco realizou, em Puerto Maldonado, Peru, com representantes de mais de 20 etnias indígenas de todos os países da Região Pan-Amazônia: Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia, Chile, Suriname, Equador, Guiana, Venezuela, incluindo a Guina Francesa.

O Sínodo da Amazônia reuniu 185 “padres sinodais” (como são chamados os bispos participantes), sendo 57 brasileiros, além de outras pessoas convidadas: padres – inclusive o Cônego Raimundo Aristide da Silva, CRL, responsável da Casa da Juventude Lateranense [CAJULA], em Pirapora do Bom Jesus, em nossa Diocese −, diáconos, cristãos leigos, várias mulheres, indígenas e peritos, isto é, pessoas encarregadas de ajudar na elaboração dos documentos.

Sempre à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja, isto é, dentro de uma perspectiva moral e ética, vários temas de ordem social e eclesial foram refletidos e aprofundados. Só para citar alguns exemplos: as ameaças à vida; a nova concepção do “pecado ecológico” como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente, a ruptura das redes de solidariedade entre criaturas e contra a virtude da justiça; o crescimento acelerado das metrópoles amazônicas; a demarcação das terras indígenas; o papel da mulher nas comunidades eclesiais; a escassez de padres, os quais são mais visita esporádica do que presença efetiva nestas terras; a valorização do diaconado permanente; a urgência de uma pastoral indígena; a criação de novos ministérios da Igreja; e a valorização dos jovens nas comunidades dos povos originários. Recebeu muito destaque o aprofundamento do conceito de “ecologia integral”, que, a partir da Carta Encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco “sobre o cuidado da Casa Comum” (2015), salienta que a vida na Amazônia deve incluir necessariamente as dimensões humanas e sociais da pessoa humana, como também as dimensões naturais e econômicas da ordem social.

No final do Sínodo, os padres sinodais aprovaram, quase por unanimidade, todos os 120 parágrafos do Documento Final. Qual o resultado deste último Sínodo? Tenho certeza de que ele será um verdadeiro “kairós”, isto é, tempo de graça e da presença sempre renovadora do Espírito na sua Igreja, a fim de que a Igreja possa encontrar novas maneiras de evangelizar e se evangelizar na grande Amazônia, renovando-se não tanto em relação às estruturas, mas a uma renovação interior profunda, uma maneira ainda não vislumbrada plenamente de estar presente nessa região. De fato, é a partir de agora que o Sínodo para a Amazônia está começando! Nós também aqui na Diocese temos que aprender muito deste último Sínodo, uma vez que estamos trabalhando no horizonte bonito das novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023 para proclamar a Palavra, à luz da opção preferencial pelos pobres, formando comunidades eclesiais missionárias nesta cultura urbana desafiadora em que vivemos, sempre cuidando da Casa Comum. Por isso, devemos assumir, corajosamente, o modelo de uma Igreja sinodal, uma Igreja que escuta a Deus e ao Evangelho, que atende aos clamores e sofrimentos dos pobres e aos “gritos da natureza que geme como em dores de parto na espera de sua plena libertação e em vista da liberdade da glória dos filhos de Deus” (cf. Rm 8,19-22).

Que Nossa Senhora da Amazônia interceda para que a Igreja encontre “os novos caminhos da evangelização e para uma ecologia integral”. Assim seja!

E a todos abençoo.

Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

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