Homilia da Missa da Padroeira Nossa Senhora do Desterro

Eu conheço Dom Vicente Costa desde minha chegada aqui no Brasil. Posso testemunhar que ele, quando fala, é sincero. Sabe ser um bom homem, um santo Bispo, e tudo. Então quando ele fala que está com saudade de eu ir embora, eu acho que eu estou certo: ele é sincero. Mas eu estava me questionando, Dom Vicente… Se eu decidir ficar, não ir mais embora, o que o senhor vai fazer? Não vai ser fácil arrumar um lugar para o núncio, não é, mesmo se eu escolhi ficar na Paróquia São Pedro? É só para dizer que eu também vou embora com tanta saudade e, ao mesmo tempo, com tanta alegria no coração, porque aqui eu passei cinco dias que acho que não vou esquecer na minha vida, não somente por esta amizade, e também a cordialidade de todos vocês, mas por ter visto uma Igreja que verdadeiramente caminha, uma Igreja que vai à frente, uma Igreja que, apesar das dificuldades que tem, ainda guarda a coragem, o entusiasmo, a alegria de ser Igreja no meio do povo, guiada por um pastor que sente o cheiro das ovelhas.. Então eu agradeço a Deus, por essas graças que Ele me deu.

E, depois, agradeço a Dom Vicente por ter organizado tão bem esta visita. Ele estava sempre preocupado demais. No final concluímos que temos muitas coisas ainda para ver e que o que ele organizou foi pouca coisa. Então eu fico feliz igualmente por ter visto tantas coisas…Mas tem coisas que eu vou levar no meu coração, muito perto, como, por exemplo, a Comunidade de Amor Rainha da Paz, o encontro com os jovens, a  Casa Santa Marta…  Uma visita que verdadeiramente eu nunca vou esquecer.

Cumprimento, na pessoa de Dom Júlio, Arcebispo de Sorocaba, todos os bispos da província. Cumprimento, na pessoa do pároco, padre Milton, todos os padres, a iniciar pelo Vigário Geral, o padre Carlos, o padre Leandro, o padre Márcio Felipe que foram tão carinhosos comigo nesses dias que estivemos juntos. Cumprimento todos os religiosos e religiosas, com os quais passei um momento verdadeiramente muito lindo no encontro que tivemos no segundo dia da minha chegada aqui. Agradeço e cumprimento as irmãs carmelitas. Cumprimento todos os leigos, os jovens desta querida Diocese, e uma menção especial à Irmã Lucila, como também a Andressa, que cuidaram do Núncio. O Núncio chegou aqui com o desejo de fazer regime, mas foi exatamente o contrário. Eu acho que, apesar dos quilos de alegria, também ganhei quilos de verdade. Cumprimento todo o povo de Deus e agradeço as autoridades, na pessoa do prefeito Luiz Fernando e de sua esposa Vanessa, pela cordialidade com a qual eu fui acolhido, quase me considerando desde o primeiro momento um jundiaiense. Então podem imaginar com que tristeza eu vou embora.

Mas ir e vir é um movimento que faz parte da nossa vida. Ir e vir é um pouco o símbolo desta festa de Nossa Senhora do Desterro. Quando o Bispo me convidou para celebrar Nossa Senhora do Desterro eu, francamente, disse: Mas que é o desterro? Eu não tenho ideia. Fui ver no dicionário e era ligado a refugiados, gente que deixa a pátria. No final, depois, ele me deu uma palavra, que era “exílio”. Estava pensando que nós, quase todos os dias, nos lembramos de nossa condição de exilados. Quando a gente reza a Salve Rainha lembramos-nos que somos exilados, que vivemos num vale de exílio, para dizer que nós também estamos nesta dinâmica de ir para, depois, voltar, como lembra o Evangelho. José e Maria pegam o menino e vão ao Egito, porque eles estavam ameaçados. Mas, depois, voltaram do Egito e se estabeleceram em Nazaré. A condição do homem que nasce para depois voltar a Deus; que vem de Deus e tem de voltar a Deus, e tem de aproveitar a sua “estadia” no exílio para fortalecer-se para poder voltar à casa do Pai. Nós estamos todos os dias fazendo este caminho. Estamos fortalecendo, cada vez mais, esta força que vai nos permitir voltar ao Pai e voltar à terra prometida.

A Igreja de Jundiaí é uma Igreja em movimento também na figura, na pessoa dos padres e do diácono que agora estão indo para outro lugar para ser missionários. Depois que a gente encontra Deus sente o desejo de compartilhá-la com os outros. É como quando se lembra da parábola da pérola, se lembra da parábola da dracma, quando a gente encontra algo de precioso, faz de tudo para ter esta jóia e depois compartilhar a alegria de ter encontrado alguma coisa para com os amigos. E aí, em Moçambique, como também em Roraima, têm amigos que precisam saber o quanto estamos felizes por ter encontrado Deus, de quanto é importante ter encontrado Deus. E nossos amigos vão aí justamente compartilhar essa alegria com tantas pessoas que ainda esperam encontrar Deus, como fizemos, padre Joaquim, ontem à noite, quando encontramos os nossos amigos em São Pedro: a alegria de nos sentirmos juntos na mesma família, família que fez um caminho, família que está fazendo um caminho, família que tem que continuar a caminhar para poder, depois, voltar à casa do Pai cheia do amor de Deus, daquele amor que Deus nos deu. É a missão da Igreja. É a missão de cada um de nós, que tem que subir o burro acompanhado por Deus, e com a proteção de Maria, e ir caminhando ao redor para trazer este menino que está nos braços de Maria e dizer aos outros que ele é a salvação. Temos que fazê-lo hoje em um mundo que, se não é igual àquele de Herodes tem muitas semelhanças porque é um mundo no qual parece sempre não ter mais lugar para Deus, um mundo no qual parece que o materialismo é muito mais importante que o espiritual, que tem perdas de valores a qualquer momento, um dia-a-dia onde não tem mais justiça, não tem mais fraternidade, onde não tem mais carinho para com os outros. Nós, gente de Igreja, gente que acredita em Deus, e que recebemos de Deus no momento do batismo e que vamos receber em cada momento que comungamos, temos que levar conosco este presente que é Deus e temos que dizer aos outros: olha, tenha coragem, como disse o Senhor a Pedro, tenha coragem, não tenhais medo, Cristo está contigo, eu estou trazendo este Cristo.

É a Igreja que caminha, é aquela Igreja que o Papa Francisco prefere comparar a um campo de batalha, é aquela Igreja que vai à periferia não somente material, mas sobretudo existencial, aquelas periferias onde falta a presença de Deus, onde falta a presença de Cristo, onde não mora mais a segurança de ter um amigo que nos acompanha e que cuida de nós.

Então hoje, neste dia, agradecendo a Deus pelos 50 anos da Diocese de Jundiaí, que também é um exemplo, um sinal de caminho que tem de continuar, vai fazer ainda tantos anos à frente, hoje nós vamos pedir a Deus nesta celebração, começando por nós, padres, diáconos, religiosos, religiosas, que vamos colher o significado do caminho, o significado de se por a caminho para chegar aos outros, de não ficarmos nos nossos aposentos, de não ficarmos nas nossas ideias, de não ficarmos na nossa segurança, mas de ir ao encontro dos outros que precisam de nós.

Quando vejo uma realidade como aquela da Comunidade Amor Rainha da Paz ou da Casa Santa Marta, ou de outras realidades que estão não somente em Jundiaí, mas em todos os países, eu fico verdadeiramente emocionado, mas sobretudo com vontade de levantar, de fazer algo por essas pessoas. E bastaria somente uma visita. Pensa quantas pessoas estão nessas casas para idosos, e estão aí sem receber uma visita de alguém que vá lhe dizer: coragem!, e agradecendo por tudo aquilo que você fez. Quantas pessoas estão na prisão e são isoladas porque nós achamos que são piores do que nós. Elas têm seguramente feito algo que a justiça vai determinar, mas que talvez naquele momento estejam isoladas e sentem-se no exílio pensando que não têm possibilidade de sair e, então, de voltar. Quantas pessoas estão nos hospitais, sozinhas, e nós não nos preocupamos, não temos o tempo para fazer uma visita, mesmo se não conhecemos essas pessoas. É isso que tem que despertar a saída, a exigência, que precisamos saber que tem alguém que não é como nós e que precisa de nós.

Eu gostaria que esses 50 anos de Diocese despertassem em nós esse desejo de nos por a caminho para levar outros até a volta de Nazaré, até a volta em Israel, em Jerusalém. Vou rezar para isso!, para que cada um de nós possa fazer isso. Juntos, na unidade, na comunhão, todos juntos, com nosso Bispo, com os padres que colaboram com ele, com os leigos, porque temos que criar, alimentar, fazer melhor sempre mais, melhorar essa solidariedade que, enquanto filhos e filhas de Deus temos que ter para com os outros.

E o exílio, então, naquele momento, vai tornar-se como aquele de José e Maria, de José e o menino, e voltar para a glória de Deus, para iniciar, finalmente, a instauração do Reino de Deus aqui na terra.

Querido Dom Vicente, nós falamos várias vezes em voltar para o centenário da Diocese, mas acho que vai ser difícil, não é? Muitos estarão aqui para o centenário, eu desejo à maioria. Mas você e eu, acho que vai ser um pouco difícil. Mas nós vamos ficar juntos para que esta Igreja cresça sempre mais. Você vai fazer isso no empenho cotidiano que já está demonstrando. E todos vão fazer colaborando para que esta comunidade seja sempre uma comunidade em saída; para que os fiéis da São Pedro não se sintam abandonados; para que aos assistidos da Casa Santa Marta encontrem um amigo com o qual possam falar; para que os meninos da Comunidade de Amor Rainha da Paz saibam que além das próprias mães e pais, têm outros tios, tias, irmãos, que pensam neles. Uma Igreja que seja sempre mais a presença de Deus em qualquer lugar desta querida Diocese, que já sinto um pouco como minha…

Eu tenho que voltar para Brasília. Vamos ficar juntos através da oração. Rezem para mim também, porque eu acho que, mesmo se nós estamos distantes, quilômetros e quilômetros, uma hora e meia de avião, nós podemos construir, graças à oração, uma ponte, que vai permitir com que nós estejamos juntos e ainda mais vamos fazer este caminho de ida e volta para que possamos nos sustentar, sim, mutuamente, e sintamos a força e a coragem para ir fora, encontrar os irmãos e dar a cada um deles o amor de Deus, a graça de Deus.

Muito obrigado, Jundiaí, e eu vos amo de verdade. Obrigado!

Dom Giovanni d’Aniello
Núncio Apostólico para o Brasil

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