Acolher, proteger, promover e integrar os migrantes

“Eu era forasteiro, e me recebestes em casa” (Mt 25,35)

Prezados irmãos da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

A história dos povos mostra que sempre houve diversos ciclos de migrações para outras regiões no país ou para terras estrangeiras. Este fenômeno das migrações é muito presente na história do Brasil, seja durante a sua descoberta e o período de colonização, seja durante os tempos posteriores. Ao longo dos séculos, vários povos ocuparam o nosso país, a maioria formada por europeus. No entanto, podemos dizer que o Brasil vive um novo momento, pois ao longo dos últimos anos, houve um movimento crescente de grupos estrangeiros no Brasil, principalmente vindos de países ou regiões marcados pela pobreza, por grandes conflitos, perseguições ou desastres naturais. Nos últimos anos, um grande número de haitianos veio para o Brasil, através da Amazônia, em busca de emprego e melhores condições de vida.

Por exemplo, no cenário internacional, o número de migrantes internacionais alcançou a marca de 244 milhões em 2015 – um aumento de 41% em relação ao ano de 2000. Em nosso país, o número de migrantes registrados pela Polícia Federal (PF) aumentou 160% em dez anos. Por exemplo, no ano de 2016, foram mais de 42.000 migrantes haitianos registrados pela PF, além daqueles que entraram no país de forma ilegal. É a nacionalidade que mais se destaca pelo crescimento nos últimos cinco anos.

Porém, o problema surge quando esses migrantes não encontram no Brasil a vida com que sonhavam. Instalações de moradia inadequadas, com a falta de saneamento básico e locais trabalhistas insalubres com cargas horárias excedentes são a realidade de muitos estrangeiros que procuram o Brasil por melhores condições sociais. Como se não bastasse, a migração, não raro, ilegal, como também a dinâmica capitalista de várias empresas que visam apenas a seus lucros, não respeitam os direitos trabalhistas desses profissionais, considerando-os mão de obra barata. Além disto, infelizmente, vêm aumentando em nosso país os casos de preconceito e de xenofobia (desprezo por pessoas estrangeiras) em relação às populações advindas de países subdesenvolvidos, considerando-as como portadoras de doenças ou como pessoas que vêm “roubar” vagas de empregos e que “ameaçam” a identidade cultural do nosso país.

Várias partes da Bíblia Sagrada tratam da questão dos migrantes. No Antigo Testamento, a história da salvação do povo eleito inicia-se com a vocação de Abraão, chamado por Deus a sair de sua terra para ir para uma terra que o Senhor iria lhe mostrar (cf. Gn 12,1). O Senhor pede ao povo para respeitar o estrangeiro: “O estrangeiro que mora convosco seja para vós como o nativo. Ama-o como a ti mesmo, pois vós também fostes estrangeiros na terra do Egito” (Lv 19,34). Ou ainda: “Portanto, amai o estrangeiro” (Dt 10,19), pois o Senhor castiga quem “mata a viúva e o estrangeiro, massacra os órfãos” (cf. Sl 94[93],6).

No Evangelho se narra como José e Maria fogem para a terra do Egito com Jesus ainda bebê para escapar do terror de Herodes (cf. Mt 2,13ss.). Jesus e seus discípulos viajam para muitas aldeias e cidades diferentes durante os três anos de ministério, pois Jesus “não tinha lugar onde repousar sua cabeça” (cf. Mt 8,20). Na sua pregação, Jesus se identifica com o “forasteiro”, o migrante, sem casa e sem dignidade reconhecida, que deve ser acolhido com carinho e amor (cf. Mt 25,35.40). Portanto, a essência do Evangelho quebra todas as barreiras do preconceito social, racial, religioso e cultural, “pois todos nós somos um só, em Cristo Jesus” (cf. Gl 3,28). São Paulo admoesta: “Acolhei-vos uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para a glória de Deus” (Rm 15,7).

O Papa Francisco, repetidas vezes, durante o seu pontificado, tem mostrado sua especial preocupação pela triste situação de tantos migrantes e refugiados. Sem dúvida, foi um gesto profético sua visita a Lampedusa, na Sicilia, Itália (08/07/2013), onde chegam tantos migrantes fugindo dos países africanos, sobreviventes da travessia arriscada do mar Mediterrâneo.

No dia 15 de agosto deste ano, o Papa Francisco lançou uma Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, a ser comemorada no dia 14 de janeiro de 2018. Nesta Mensagem, o Papa resume em quatro verbos a nossa ação caritativa em relação aos migrantes: (1) Acolher: assegurando a segurança pessoal e o acesso aos serviços básicos; (2) Proteger: promovendo uma ampla série de ações em defesa dos direitos e da sua dignidade; (3) Promover: respeitando a cultura, a diversidade e a religião dos migrantes; (4) Integrar: possibilitando a inserção dos migrantes na nova sociedade. Deste modo, “cada forasteiro que bate à nossa porta é ocasião de encontro com Jesus Cristo, que Se identifica com o forasteiro acolhido ou rejeitado de cada época (cf. Mt 25, 35.43)”, afirma o Papa.

Graças a Deus, em nossa Diocese já existem várias iniciativas voltadas para acolher e ajudar os migrantes e que são realizadas tanto pelos Padres da Congregação dos Missionários de São Carlos, que atuam na Paróquia Sagrado Coração de Jesus (Padres Carlistas), como também pelas Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo (Irmãs Carlistas ou Scalabrinianas), ambas localizadas no Bairro Colônia, em Jundiaí. Estas duas Congregações, fundadas pelo Beato Bispo João Batista Scalabrini (1939-1901), o “Pai dos Migrantes”, têm o seu carisma específico voltado para o mundo da mobilidade humana, atendendo aos dramas humanos dos refugiados e prófugos. Além do trabalho extraordinário feito pelos Padres Carlistas na referida Paróquia, as Irmãs Carlistas dirigem o CESPROM (Centro Scalabriniano de Promoção do Migrante).

A partir do ano de 2013, com a chegada dos haitianos no Brasil, Jundiaí vem recebendo muitos deles que aqui se instalam em busca de emprego e de um futuro melhor. No início, vinham apenas os homens, mas agora chegam famílias inteiras. O CESPROM oferece vários cursos aos migrantes com o objetivo de atendê-los em suas necessidades básicas, bem como capacitá-los para alguma profissão. Os haitianos moram em vários bairros da cidade de Jundiaí, como também em outras cidades da nossa Diocese.

Queridos irmãos diocesanos, eu lhes pergunto: por que não enfrentarmos juntos o desafio dos irmãos migrantes presentes em nossa Diocese, pensando numa ação mais articulada e planejada? Por que não realizar um levantamento do domicílio dos haitianos em nossas Paróquias, procurando sair de nós mesmos para ir ao encontro desses nossos irmãos? Neste sentido, a criação da Pastoral do Migrante torna-se uma urgência.

Termino com as palavras conclusivas da Mensagem do Papa Francisco: “A Mãe de Deus experimentou pessoalmente a dureza do exílio (cf. Mt 2,13-15), acompanhou amorosamente o caminho do Filho até ao Calvário e agora participa eternamente da sua glória. À sua materna intercessão confiamos as esperanças de todos os migrantes e refugiados do mundo e as aspirações das comunidades que os acolhem, para que todos, no cumprimento do supremo mandamento divino, aprendamos a amar o outro, o estrangeiro, como a nós mesmos”.

A todos abençoo, particularmente os migrantes e refugiados e todos aqueles que tentam aliviar as suas dores.

Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

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