A Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (3) – Dois inimigos sutis da santidade

“No segundo capítulo da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate do Papa Francisco, intitulado como “Dois inimigos sutis da santidade”, o Santo Padre chama a atenção para duas falsificações da santidade que poderiam extraviar-nos: o neognosticismo (o fechamento sobre si mesmo e sobre suas próprias ideias e conhecimentos) e o pelagianismo (o empenho em realizar seus próprios projetos segundo planos, estratégias ou organizações sem a ajuda da graça de Deus). O Papa sublinha que em ambas nos apegamos a nossos ideais e aos caminhos que escolhemos para realizar nossos projetos sociais e pastorais, esquecendo-nos de que a vida e a ação cristãs não têm outro caminho senão acolher e cultivar, em nossa vida, o Espírito de Jesus, que é graça e dom de Deus. Essas heresias, portanto, são formas de segurança doutrinária que dão origem “a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se nas energias de controlar” (n. 35).

O gnosticismo se origina da palavra grega gnosis, a qual significa “saber”, pois os gnósticos acreditam que possuem um conhecimento mais elevado, não da Bíblia, mas um conhecimento adquirido por algum plano místico e superior de existência. Os gnósticos não percebem que a nossa perfeição se mede pelo nosso grau de caridade, não pela quantidade de dados e conhecimentos. Separando o intelecto da carne, reduzem os ensinamentos de Jesus a uma lógica fria e dura que procura tudo dominar. Mas a doutrina não é um sistema fechado, privado de dinâmicas próprias capazes de gerar perguntas, dúvidas, questões.  A experiência cristã não é um conjunto de exercícios intelectuais; a autêntica sabedoria cristã nunca se pode separar da misericórdia para com o nosso próximo. O gnosticismo é uma autocelebração de “uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações. Ao desencarnar o mistério, em última análise preferem “um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo” (n. 37).

Em paralelo com o poder que o gnosticismo atribui ao intelecto, o pelagianismo o faz em relação à vontade humana, ao esforço pessoal.  Trata-se de uma heresia iniciada por um monge oriundo da Bretanha, chamado Pelágio. Ele dizia que não era necessário o auxílio da graça de Deus para que o homem realizasse atos de virtude. Cristo morreu na cruz e deu o exemplo. Bastaria ao homem segui-lo. Embora os modernos pelagianos falem calorosamente da graça de Deus, dão a entender que a vontade humana é algo puro, perfeito, omnipotente, a que se acrescenta a graça. Com um duro rigorismo de exercícios religiosos, com orações e ações, eles querem obter por direito a bem-aventurança. Falta-lhe a humildade essencial para todo amor, a humildade de receber dons para além do nosso agir e merecer. “Com efeito, se não reconhecemos a nossa realidade concreta e limitada, não poderemos ver os passos reais e possíveis que o Senhor nos pede em cada momento, depois de nos ter atraído e tornado idóneos com o seu dom. A graça atua historicamente e, em geral, toma-nos e transforma-nos de forma progressiva. Por isso, se recusarmos esta modalidade histórica e progressiva, de fato podemos chegar a negá-la e bloqueá-la, embora a exaltemos com as nossas palavras” (n.50)”.

Padre Enéas de Camargo Bête

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